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Quarta-feira, Maio 06, 2009

 
Pioneiro do mangá no Brasil ganha livro

Obra reúne cinco HQs de Claudio Seto, filho de imigrantes japoneses

Quadrinista escolheu pessoalmente suas melhores histórias de samurai pouco antes de morrer, no ano passado


IVAN FINOTTI
DA REPORTAGEM LOCAL

Em 1967, quando gigantes como Tarzan, Fantasma e Tio Patinhas dominavam as bancas de jornais de todo o Brasil, um desenhista de cartazes de liquidação das lojas Arapuã de Lins (455 km a oeste de São Paulo) roubou a cena. Era a estreia de Claudio Seto (1944-2008), filho de imigrantes japoneses, nascido na vizinha Guaiçara, desenhista de samurais.
Seu primeiro gibi, feito para a editora Edrel, de São Paulo, já destoava nas bancas por ser um livro de 150 páginas, em vez das usuais 36. Além disso, "O Samurai" fazia a felicidade da criançada e dos adolescentes por trazer sangue aos montes, além de japonesas voluptuosas.
E, finalmente, havia o fato de as histórias de vingança e de códigos de honra tratarem de um universo japonês pouco conhecido, mas que já despertava interesse -"National Kid" começou a passar no Brasil em 1964. "Claudio Seto é, sem dúvida, o pai do mangá no Brasil", diz o jornalista Gonçalo Júnior, autor de "A Guerra dos Gibis" (Companhia das Letras), que traça a história das histórias em quadrinhos no Brasil. "Mais que isso, ele é provavelmente o primeiro a desenhar mangás no Ocidente, fora do Japão. Na minha opinião, é o cara mais importante dos quadrinhos brasileiros até a década de 80."
E, mesmo assim, mesmo para leitores vorazes de mangás, Claudio Seto não passa hoje de um desconhecido. Foi para tentar mudar esse panorama que o editor Toninho Mendes, da Jacarandá, pegou um avião para Curitiba e pediu que Seto escolhesse as cinco melhores histórias de sua lavra. "Ele entrou no escritório e voltou meia hora depois com os cinco gibis", lembra Toninho.
Seto ajudou ainda a escolher o nome do livro e a capa e se prontificou a escrever uma introdução para cada história. As introduções são ouro puro: ""O Sósia" é um marco das histórias que desenhei na década de 70. (...) As primeiras páginas ainda trazem os finos traços da pena (de metal) gillot francesa, no estilo tradicional bico de pena. Mas, depois, o uso da pena caseira de bambu afiado (madeira) originou os traços que seriam definitivos para o gênero samurai."
Seto se mudou do interior de São Paulo para Curitiba nos anos 70. Ele estava de passagem pela cidade no histórico 17/7/1975, quando nevou -o que o convenceu a ficar para sempre. Lá, comandou um estúdio para a editora Grafipar (leia na próxima página). Morreu lá em novembro passado, após um AVC.
E é lá que, amanhã, às 20h, um evento marca o lançamento de "Flores Manchadas de Sangue", na praça do Japão (av. Sete de setembro, s/nº, Curitiba). A meteorologia, infelizmente, não prevê neve.

FLORES MANCHADAS DE SANGUE

Autor: Claudio Seto
Lançamento: Devir/Jacarandá
Quanto: R$ 28 (128 págs.)

Quadrinista inovou no modo de narrar HQ

DA REPORTAGEM LOCAL

Como um samurai saído dos filmes de Akira Kurosawa, Claudio Seto era um respeitável senhor monossilábico. Marcial, comandava seus desenhistas e roteiristas apenas com sorrisos. O problema era decifrar cada um deles. "Você tinha que interpretar se o sorriso era de aprovação ou de reprovação", lembra o quadrinista e editor Franco de Rosa, que trabalhou com Seto em Curitiba nos anos 70 e 80. "Ele comandava sem comandar, apenas com gestos sutis."
O estúdio de Seto na editora curitibana Grafipar foi responsável por reunir nomes que seriam importantes para a HQ brasileira, como Mozart Couto e Watson Portela, além de Rosa. Os gibis eram divididos por gêneros: sertão, pampas, eróticos, terror, ficção científica ou policial. Chegaram, segundo o historiador de HQs Gonçalo Júnior, a vender até 5 milhões de exemplares por mês.
Segundo Franco de Rosa, as inovações de Claudio Seto foram muitas. A mais marcante é a narrativa fragmentada (muito usada em "Lobo Solitário" e por Frank Miller): um quadrinho mostra a ponta da espada; outro, o rosto do samurai; um terceiro, a expressão do oponente; e por aí vai, uma página inteira sem texto, apenas desenhos a contar a história.
A quadrinização é inovadora, com quadrinhos verticalizados ou horizontalizados ao extremo. Às vezes, Seto desenhava em cima de fotografias, criando um clima soturno. E as primeiras páginas eram sempre exuberantes, com o título desenhado como se fosse uma montanha, por exemplo. "Foram inovações recebidas com chacotas por muitos colegas", diz Rosa.
Em 1970, os japoneses Kazuo Koike e Goseki Kojima lançaram "Lobo Solitário", sobre um samurai que vagava pelo Japão empurrando um carrinho com seu filho bebê.
Traduzido para o inglês nos anos 80 e lançado nos Estados Unidos com capas de Frank Miller, foi um enorme sucesso. E muita gente hoje acredita que Seto copiava as histórias de Koike e os desenhos de Kojima, tamanha a semelhança.
"Mas isso não é verdade. Seto começou antes, em 1967", diz Júnior. As quitandas do interior de São Paulo, afinal, vendiam diversos produtos importados do Japão, como saquê, peixe seco e... mangás, que serviram de fonte para todos. E nunca largou o hábito, conforme lembra Franco de Rosa. "Na casa dele, havia um quarto só de gibis, amontoados, aos milhares, no chão. Ele me mostrou e disse: "Meu sonho era ter uma caixa forte igual à do Tio Patinhas, que nadava nas moedas". Então mergulhou na montanha de gibis como se fosse uma piscina. E ficou lá nadando, sorrindo para mim." (IF)

Folha Online

Leia uma história completa de Claudio Seto: www.folha.com.br/091143

- - - Reproduzido da Folha de S. Paulo de 06/05/2009.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 1:10 PM


Domingo, Novembro 16, 2008

 
Amor sem pudor

Principal nome da nova geração de escritores norte-americanos, Jonathan Franzen descreve como o uso do celular modificou o espaço público e criou novas formas de sensibilidade

JONATHAN FRANZEN


Um dos grandes fatores irritantes da tecnologia moderna é que, quando alguma novidade tecnológica faz minha vida ficar sensivelmente pior e continua a encontrar maneiras novas e diferentes de me causar problemas, sou autorizado a me queixar dela por apenas um ano ou dois, antes que os marqueteiros do "cool" comecem a me mandar parar com isso -vovô, a vida hoje em dia é assim mesmo!
Não sou contra as novidades tecnológicas. A secretária eletrônica digital e a identificação do número de telefone de quem liga para você -que, juntas, acabaram com a tirania do telefone tocando- me parecem ser duas das invenções realmente importantes do final do século 20.
E como amo meu BlackBerry, que me permite responder a e-mails longos e indesejados com algumas linhas telegráficas ofegantes pelas quais, mesmo assim, o destinatário é obrigado a sentir-se grato, já que as escrevi com meus polegares. A privacidade, para mim, não quer dizer manter minha vida pessoal escondida de outras pessoas.
Os avanços tecnológicos com os quais tenho problema são os insultos que continuam a insultar, as dores do passado que continuam a provocar dor.
A TV dos aeroportos, por exemplo: parece que é assistida ativamente por não mais que 1 viajante em cada 10 (a não ser que estejam exibindo futebol), mas incomoda ativamente os outros nove.
Ano após ano, em um aeroporto após o outro, ela é responsável por uma diminuição pequena, mas aparentemente permanente, na qualidade de vida do viajante médio.
Outro exemplo: a obsolescência planejada de grandes softwares e sua substituição por softwares ruins. Ainda não me conformo com o fato de que o melhor processador de texto já escrito, o WordPerfect 5.0 para DOS, não funcione mais em nenhum computador que eu possa comprar hoje.
Mas essas são apenas irritações menores. O avanço tecnológico que causou danos duradouros de importância social real -e que, apesar de continuar a fazê-lo, faz você correr o risco de ser ridicularizado se se queixar dele publicamente hoje- é o telefone celular.

Cigarro e celular
Há dez anos, Nova York (onde vivo) era repleta de espaços públicos mantidos coletivamente em que os cidadãos demonstravam respeito por sua comunidade, não a obrigando a tomar conhecimento de suas vidas amorosas banais.
O mundo de dez anos atrás ainda não tinha sido totalmente dominado pela verborréia. Ainda era possível ver o uso de Nokias como uma ostentação ou afetação de ricos. Ou, sob uma óptica mais tolerante, como um mal, uma deficiência ou uma muleta.
Afinal, na Nova York do final dos anos 1990, a transmissão de cultura da nicotina para cultura do celular ainda estava em processo. Num dia o volume no bolso da camisa era um maço de Marlboro; no dia seguinte, era um Motorola.
Um dia a garota bonita, vulnerável por estar desacompanhada, estava ocupando suas mãos, sua boca e sua atenção com um cigarro; no dia seguinte, ocupava-o com uma conversa muito importante com uma pessoa que não era você.
Num dia uma multidão se reunia em torno do primeiro adolescente no playground a carregar um maço de cigarros; no dia seguinte, se reunia em volta do primeiro a ostentar uma tela colorida.
Num dia, os viajantes acendiam seus isqueiros assim que desciam do avião; no dia seguinte, estavam discando números em seus celulares.
Dependências de um maço de cigarros por dia viraram contas mensais de US$ 100. A poluição por fumaça virou poluição sonora.
E, apesar de o fator irritante ter mudado da noite para o dia, o sofrimento imposto a uma maioria contida por uma minoria compulsiva, em restaurantes, aeroportos e outros espaços públicos, continuou a ser uma constante estranha.
Em 1998, pouco depois de abandonar o cigarro, eu ficava sentado no metrô, observando outros passageiros abrirem e fecharem seus celulares, nervosos, ou mastigarem as antenas (que lembravam tetas e que todos os telefones tinham à época) ou então simplesmente segurarem firme seus telefones, como se estivessem agarrando as mãos de suas mães, e sentia algo como compaixão por eles.

Sem resistência
Ainda me parecia ser questionável até onde iria a tendência: se Nova York queria realmente virar uma cidade de viciados em telefone, perambulando pelas ruas como sonâmbulos, envoltos em pequenas nuvens pegajosas de vida privada, ou se a noção de um eu público mais contido conseguiria prevalecer.
É desnecessário dizer que não houve disputa nenhuma. O celular não foi uma daquelas novidades modernas, como o Ritalin [nome comercial do metilfenidato] ou os guarda-chuvas extragrandes. Seu triunfo foi rápido e total.
Seus abusos foram lamentados e criticados em ensaios, colunas e cartas a editores diversos e, então, lamentados e criticados com ainda mais contundência quando os abusos pareceram apenas se intensificar, mas foi só isso.
As queixas foram registradas, foram feitos alguns ajustes simbólicos (o "vagão silencioso" nos trens Amtrak, plaquinhas discretas pedindo contenção no uso do celular em restaurantes e academias) e a tecnologia do celular ficou livre para continuar a provocar seus danos sem medo de ser alvo de mais críticas, porque novas críticas seriam antiquadas e nada "cool", vovô.
Mas o simples fato de o problema já ser familiar não significa que o vapor metafórico deixe de sair dos ouvidos de motoristas presos atrás de um sujeito que dirige na pista da esquerda, batendo papo ao telefone enquanto se mantém paralelo ao veículo que está na pista mais lenta.
Apesar disso, tudo em nossa cultura comercial diz ao motorista tagarela que ele está com a razão e assinala a todos os outros que estamos errados -que estamos deixando de entrar na onda do programa barato de liberdade, mobilidade e minutos ilimitados.
A cultura comercial nos diz que, se estamos irritados com o motorista tagarela, deve ser porque não estamos nos divertindo tanto quanto ele.
O que há de errado conosco, afinal? Por que não podemos abrir um sorriso e tirar do bolso nossos próprios telefones, com nossos próprios planos de ligações mais baratas para familiares e amigos e começar a nos divertir mais ali mesmo, na pista de rolamento?
As pessoas socialmente retardadas não começam a agir de modo mais adulto de repente, quando os críticos sociais são forçados a silenciar devido à pressão de seus pares. Ficam mais mal-educadas, só isso.

Fila do caixa
Uma praga nacional de hoje que só vem se agravando é a do cliente que continua absorto num telefonema enquanto efetua uma compra em um caixa de um supermercado ou em uma loja.
A combinação típica em meu bairro, em Manhattan, envolve uma jovem branca, recém-graduada de alguma escola cara, e uma mulher local, negra ou hispânica, de aproximadamente a mesma idade, mas que teve menos vantagens na vida.
É claro que é uma vaidade liberal esperar que a caixa interaja com você ou aprecie as exigências de seu trabalho; ela é autorizada a tratá-lo com tédio ou indiferença; na pior das hipóteses, é uma atitude pouco profissional da parte dela.
Mas isso não alivia você de sua própria obrigação moral de reconhecer a existência dela como pessoa.
E, embora seja verdade que algumas caixas e balconistas pareçam não se incomodar em serem ignoradas, uma porcentagem notavelmente maior delas se irrita, se aborrece ou se entristece visivelmente quando uma cliente se mostra incapaz de afastar-se do celular para lhe dedicar pelo menos dois segundos de interação direta.
Desnecessário dizer que a própria infratora, como o motorista tagarela na rodovia, ignora alegremente o fato de estar irritando alguém.
E, em minha experiência, quanto mais longa a fila que se forma atrás dela, maior é a probabilidade de ela pagar sua compra de US$ 1,98 com cartão de crédito.
Existe, é claro, uma conseqüência social positiva do agravamento desses maus comportamentos. A noção abstrata de espaços públicos civilizados como recursos raros que merecem ser defendidos pode estar praticamente morta, mas ainda é possível encontrar consolo nas comunidades momentâneas e pontuais de sofredores criadas por esses maus comportamentos.
Olhar pela janela de seu carro e ver o vapor metafórico saindo dos ouvidos de outro motorista ou encontrar o olhar da caixa irritada do supermercado e acenar a cabeça, solidarizando-se com ele -essas coisas fazem a gente sentir-se menos só.
É por essa razão que, de todas as variedades cada vez piores de mau comportamento ao celular, aquela que mais profundamente me irrita é a que, pelo fato de não fazer vítimas evidentes, aparentemente não irrita a mais ninguém.
Refiro-me ao hábito -incomum há dez anos, mas hoje onipresente- de encerrar conversas ao celular gritando "amo você!". Ou, ainda mais opressivo e exasperador, "eu te amo!". Isso faz sentir vontade de me mudar para a China, onde não entendo a língua que as pessoas falam. Me dá vontade de gritar.

Imposição pessoal
O componente celular de minha irritação é simples e direto.
Simplesmente não quero -enquanto estou comprando meias na Gap ou na fila para comprar um ingresso e me ocupando com meus pensamentos pessoais ou tentando ler um romance num avião quando o embarque ainda não foi encerrado- ser arrastado em minha imaginação para o mundo pegajoso da vida doméstica de algum ser humano próximo.
A própria essência do que é tão desagradável no celular como fenômeno social é que ele possibilita e incentiva o ato de impor o pessoal e individual ao público e comunal.
E não existe declaração de mais alto calibre que "eu te amo" -não há nada pior que um indivíduo possa impor a um espaço público comum. Mesmo "vá à merda, imbecil!" é menos invasivo, na medida em que é o tipo de coisa que pessoas iradas às vezes gritam em público e que pode igualmente bem ser dirigido a um estranho.
Minha amiga Elisabeth me assegura que a nova praga nacional do "amo você" é uma coisa boa -uma reação saudável contra a dinâmica familiar reprimida de nossas infâncias protestantes de algumas décadas atrás.
O que pode haver de errado, diz Elisabeth, em você dizer a sua mãe que a ama ou ouvir dela que o ama? E se um de vocês dois morrer antes que vocês possam voltar a se falar? Não é bom que possamos nos dizer essas coisas com tanta liberdade hoje em dia?
Vou admitir a possibilidade de que, comparado a todas as outras pessoas no aeroporto, eu seja uma pessoa extraordinariamente fria e pouco amorosa; que a sensação repentina e avassaladora de amar alguém (um amigo, cônjuge, pai, mãe ou irmão) -que para mim é uma sensação tão importante e única que faço questão de não desgastar pelo uso a frase que melhor a expressa- é para outras pessoas tão comum e corriqueira que pode ser revivida e reexpressa muitas vezes em um único dia sem perda significativa de seu poder.
Entretanto, também é possível que a repetição habitual e excessivamente freqüente esvazie frases de seu significado.
[A cantora canadense] Joni Mitchell, em "Both Sides Now", falou do espanto solene de poder dizer "eu te amo" "em voz alta": de dar à luz vocalmente uma intensidade tão grande de sentimento. Stevie Wonder, em letra escrita 17 anos depois, canta sobre telefonar a alguém numa tarde qualquer simplesmente para dizer "eu te amo".

Confirmação
E, pelo fato de ser Stevie Wonder (que provavelmente, de fato, é uma pessoa mais amorosa que eu), mais ou menos consegue me fazer acreditar em sua sinceridade -pelo menos até o último verso do refrão, em que acha necessário acrescentar: "E digo isso do fundo do meu coração".
Nenhuma confirmação desse tipo seria cogitada por alguém que realmente dissesse algo do fundo de seu coração.
E assim, quando estou comprando minhas meias na Gap e a mãe que está na fila atrás de mim berra "eu te amo!" em seu pequeno telefone, não posso deixar de sentir que algo está sendo representado, sobre-representado, representado publicamente, imposto em tom desafiador.
Sim, muitas coisas domésticas são gritadas em público que não se destinam realmente ao consumo público; sim, as pessoas se deixam levar. Mas a frase "eu te amo" é demasiado importante e carregada, e seu uso como despedida é demasiado consciente para que eu possa acreditar que estou sendo forçado a ouvi-la por acaso.
Se a declaração de amor da mãe tivesse peso genuíno, reservadamente emocional, ela não tomaria pelo menos um pouco de cuidado para protegê-la de ser ouvida publicamente?
Se estivesse de fato falando a sério, do fundo de seu coração, não seria obrigada a dizê-lo em voz baixa? Sendo um estranho que a ouve dizê-la por acaso, tenho a sensação de ser convertido em participante de uma afirmação agressiva de direitos.
Ou será que eu, em minha irritação, que, admito, já começa a soar lunática, estou simplesmente projetando tudo isso?
O telefone celular chegou à maioridade em 11 de setembro de 2001. Ficou gravada em nossa consciência coletiva naquele dia a imagem de celulares como canais de expressão de intimidade pelos desesperados.
Em cada "eu te amo" dito em voz demasiado alta hoje em dia, assim como na orgia nacional mais generalizada de conectividade -o imperativo de pais e filhos se comunicarem pelo telefone uma, duas, cinco ou dez vezes por dia-, é difícil não ouvir um eco daqueles "eu te amos" terríveis, dolorosos, de partir o coração, inteiramente apropriados, ditos nos quatro aviões e naquelas duas torres fadados à destruição. E é precisamente esse eco, o fato de ser um eco, o sentimentalismo dele, que tanto me irrita.

As duas torres
Minha própria experiência do 11 de Setembro foi anômala devido à ausência de televisão. Às 9h recebi um telefonema do editor de meus livros, que, da janela de seu escritório, acabara de ver o segundo avião chocar-se com as torres.
Fui imediatamente à TV mais próxima, na sala de conferências da imobiliária situada no térreo de meu edifício e, ao lado de um grupo de corretores, assisti à queda de primeiro uma das torres e depois da outra.
Mas, então, minha namorada voltou para casa e passamos o resto do dia ouvindo o rádio, acompanhando os fatos pela web, tranqüilizando nossas famílias e assistindo da cobertura de nosso prédio e do meio da avenida Lexington (que ficou repleta de pedestres), enquanto a poeira e a fumaça da parte baixa de Manhattan se espalharam, formando uma nuvem nauseante que cobriu tudo.
À noite, percorremos a rua 42, encontramos um amigo que mora fora da cidade e descobrimos um restaurante italiano na rua 40 que estava servindo jantar. As mesas estavam cheias de pessoas bebendo muito; o clima era de tempos de guerra.
Sentados num trem da estação Grand Central, esperando que partisse, observamos um passageiro nova-iorquino queixando-se com um cobrador, irado, sobre a falta dos trens expressos para o Bronx.
Três noites depois, das 23h até quase 3h, fiquei sentado numa sala gélida da ABC News, de onde podia ver o também nova-iorquino David Halberstam e falar por vídeo com Maya Angelou e alguns outros escritores de fora da cidade, enquanto aguardávamos para dar a Ted Koppel [então âncora no canal] uma perspectiva literária dos ataques da manhã da terça.
A espera não foi curta. Imagens dos ataques e cenas da queda das torres e dos incêndios subseqüentes foram exibidas repetidas vezes, intercaladas com longos segmentos sobre o preço emocional cobrado dos cidadãos comuns e de seus filhos impressionáveis.
De quando em quando, um ou dois de nós, escritores, tínhamos 60 segundos nos quais dizer algo em tom próprio de escritor, antes de a cobertura voltar a mostrar mais carnificina e entrevistas arrasadoras com amigos e familiares dos mortos e desaparecidos.

O não visto
Falei quatro vezes em três horas e meia. Na segunda vez, pediram-me para confirmar relatos segundo os quais os ataques da terça-feira teriam modificado profundamente a personalidade dos nova-iorquinos. Não pude confirmar os relatos.
Disse que as expressões que vi nos rostos das pessoas eram sombrias, não enfurecidas, e contei que vi pessoas fazendo compras nas lojas de meu bairro na tarde da quarta-feira, comprando roupas de outono.
Em sua resposta, Ted Koppel deixou claro que eu falhara na tarefa que passara metade da noite esperando para desempenhar. Franzindo o cenho, disse que sua própria impressão era muito diferente: que os ataques haviam de fato mudado profundamente a personalidade de Nova York.
Naturalmente, achei que estava falando a verdade e presumi que Koppel estivesse apenas retransmitindo opiniões recebidas de outros. Mas Koppel estivera assistindo à TV, e eu não.
Eu não entendera que o pior dano ao país estava sendo feito não pelo patógeno, mas pela maciça reação contrária exagerada do sistema imunológico, porque eu não tinha TV.
Eu estivera comparando mentalmente a contagem de mortos da terça-feira com outras contagens de mortes violentas -3.000 americanos mortos em acidentes de trânsito nos 30 dias que precederam o 11 de Setembro- porque, não tendo visto as imagens, eu pensara que os números eram importantes.
Eu dedicara energia a imaginar, ou resistir a imaginar, o horror de estar sentado ao lado da janela enquanto o avião em que você voava descia sobre a rodovia West Side, ou de estar preso no 95º andar e ouvir a estrutura de aço abaixo de você começar a gemer e ruir, enquanto o resto do país vivia o trauma real, em tempo real, assistindo às mesmas imagens inúmeras vezes repetidas.
Assim, eu não precisei da sessão televisionada nacional de terapia de grupo, a enorme "maratona de abraços" tecnológica que aconteceu nos dias, semanas e meses seguintes em resposta ao trauma da exposição às imagens televisionadas.
O que pude observar foi a repentina, misteriosa e desastrosa sentimentalização do discurso público americano.
E, assim como não posso deixar de colocar a culpa na tecnologia celular quando as pessoas despejam afeto parental ou filial em seus telefones e descortesia sobre todos os estranhos ao alcance de suas vozes, não posso deixar de colocar sobre a tecnologia da mídia a culpa do processo nacional de priorização do pessoal.
Diferentemente de 1941, por exemplo, quando os EUA responderam a um ataque terrível [em Pearl Harbor] com determinação, disciplina e sacrifício coletivos, em 2001 tivemos visuais fantásticos.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 12:40 PM

 
Trauma exposto
Tínhamos imagens amadoras e pudemos decompô-las quadro a quadro.
Tínhamos telas com as quais pudemos levar a violência nua e crua para dentro de todos os quartos do país; tínhamos gravações de secretárias eletrônicas que deixaram registrados os telefonemas derradeiros e desesperados dos fadados a morrer; tínhamos psicologia de último tipo para explicar e sanar nosso trauma.
Mas, com relação ao que os ataques realmente significaram e a qual poderia ser uma reação sensata, as atitudes variaram. Esta é a coisa fantástica da tecnologia digital: acabou-se a censura dolorosa dos sentimentos de todo o mundo! Todos têm o direito de expressar suas opiniões!
Assim, a questão de se Saddam Hussein tinha ou não comprado pessoalmente as passagens aéreas dos seqüestradores continuou aberta a discussões acaloradas.
O que foi consenso geral, em lugar disso, foi que os familiares das vítimas do 11 de Setembro tinham o direito de aprovar ou vetar os planos para o memorial a ser erguido no Ponto Zero [onde ficavam as Torres Gêmeas].
E todo mundo pôde compartilhar a dor vivida pelas famílias dos policiais e bombeiros que tombaram. E todos concordaram que a ironia morrera. Depois do 11 de Setembro, a ironia vazia e maléfica dos anos 1990 simplesmente "não era mais possível"; tínhamos ingressado numa nova era da sinceridade.
O lado positivo disso é que os americanos, em 2001, passaram a dizer "eu te amo" a seus filhos com muito mais facilidade do que o haviam feito seus pais ou avós. Mas e no quesito da competição econômica? No esforço conjunto como nação? Em derrotar nossos inimigos? Em formar alianças internacionais fortes? Nesses quesitos, o balanço talvez pese um pouco para o negativo. Meus pais se conheceram dois anos depois de Pearl Harbor, no outono de 1943, e poucos meses depois já estavam trocando cartões e cartas.
Meu pai trabalhava para a ferrovia Grand Northern e com freqüência estava na estrada, em cidadezinhas pequenas, inspecionando pontes, enquanto minha mãe permanecia em Minneapolis, trabalhando como recepcionista. Das cartas dele a ela que tenho em minha posse, a mais antiga é do Dia dos Namorados em 1944. Ele estava em Fairview (Montana) e minha mãe lhe enviara um cartão de Dia dos Namorados no mesmo estilo de todos os seus cartões no ano que antecedeu o casamento deles: desenhos de bebês, criancinhas ou filhotes de animais expressando sentimentos doces.

Correspondência
A parte dianteira do cartão (que meu pai também guardou) mostra uma menininha de maria-chiquinha e um menininho corado, cada um olhando para um lado, envergonhados, e com as mãos às costas. "Queria ser uma pedrinha,/ Porque assim, quando ficar velhinha/ Talvez me veja dengosa/ E um pouco mais "corrachosa"." A resposta de meu pai traz o carimbo postal de Fairview de 14 de fevereiro e diz: "Terça-feira à noite.
Querida Irene, Sinto muito tê-la decepcionado no Dia dos Namorados; eu me lembrei, sim, mas, não tendo conseguido um cartão na farmácia, me senti um pouco tolo pedindo um na mercearia ou na loja de ferragens. Estou certo de que as pessoas aqui já ouviram falar do Dia dos Namorados.
Seu cartão correspondeu perfeitamente à situação aqui, e não sei se foi intencional ou acidental, mas acho que devo, sim, ter lhe falado de nossos problemas com as rochas. Hoje ficamos sem pedras para trabalhar, então meu desejo é de pedras pequenas, pedras grandes ou qualquer outro tipo de pedra, já que não há nada a fazer enquanto não conseguirmos pedras.
Já há pouco para eu fazer quando o empreiteiro está trabalhando, e agora não há absolutamente nada. Hoje caminhei até a ponte em que estamos trabalhando, apenas para matar tempo e fazer um pouco de exercício; é uma distância de seis quilômetros, longe o suficiente, com um vento forte me fustigando. Se não conseguirmos pedras pela manhã, ficarei sentado aqui mesmo, lendo filosofia; não me parece correto que eu seja pago por passar meu dia dessa maneira.
Mais ou menos o único outro passatempo que existe por aqui é ficar sentado no saguão do hotel ouvindo as fofocas da cidade, e os velhos que freqüentam o lugar não medem as palavras. Você acharia divertido, porque há uma amostra ampla da vida humana representada aqui, desde o médico local até o bêbado da cidade. E este último é provavelmente o mais interessante: ouvi dizer que ele chegou a lecionar na Universidade de N.D. no passado, e realmente parece ser uma pessoa bastante inteligente, mesmo quando está bêbado.
Normalmente as conversas são bastante grosseiras, mais ou menos como as que Steinbeck [escritor norte-americano, autor de "As Vinhas da Ira'] deve ter usado como ponto de partida, mas nesta noite entrou no saguão uma mulher muito grande que se colocou totalmente à vontade. Isso me faz perceber como é protegida a vida que vivemos, nós, moradores da cidade grande. Cresci numa cidade pequena e me sinto à vontade aqui, mas hoje parece que vejo as coisas sob uma óptica diferente. Escreverei mais sobre isso.
Espero estar de volta a St. Paul no sábado à noite, mas ainda não sei ao certo. Telefonarei a você quando voltar. Com todo meu amor Earl" Meu pai completara 29 anos pouco antes disso. É impossível saber como minha mãe, em sua inocência e em seu otimismo, recebeu a carta dele na época, mas, de modo geral, considerando a mulher que eu cresci conhecendo, posso afirmar que essa não era em absoluto a espécie de carta que ela teria gostado de receber de seu par romântico.
O trocadilho bonitinho de seu cartão de Dia dos Namorados interpretado literalmente como referência a lastro de ferrovia? E ela, que passara a vida inteira procurando distanciar-se do bar de hotel em que seu pai trabalhara como barman, poderia divertir-se ouvindo a "conversa grosseira" do bêbado da cidade? Onde estavam as expressões de ternura? As palavras sonhadoras de amor? Era evidente que meu pai ainda tinha muito a aprender sobre ela.
A mim, entretanto, a carta dele parece repleta de amor. Amor por minha mãe, com certeza; tentou encontrar um cartão de Dia dos Namorados para ela, leu sua carta com cuidado, deseja que estivesse a seu lado, tem idéias que quer dividir com ela, está lhe enviando todo seu amor e diz que lhe telefonará assim que retornar.
Mas também amor pelo mundo mais amplo: pelos diversos tipos de pessoas que o habitam, pelas cidades pequenas e grandes, por filosofia e literatura, pelo trabalho duro e o pagamento justo, pela conversa, pela reflexão, por longas caminhadas ao vento, por palavras escolhidas com cuidado e ortografia perfeita. A carta me lembra das muitas coisas que eu amava em meu pai -sua decência, sua inteligência, seu humor inesperado, sua curiosidade, sua probidade, sua reserva e dignidade.
Apenas quando a coloco ao lado do cartão de Dia dos Namorados de minha mãe, com suas criancinhas de olhos grandes e sua preocupação com o puro sentimento, é que minha atenção se volta às décadas de desapontamento mútuo que se seguiram aos primeiros anos de felicidade quase cega deles. Mais tarde, minha mãe se queixaria comigo, dizendo que meu pai nunca lhe dissera que a amava. E talvez seja verdade, literalmente, que ele nunca proferiu as três palavras grandes -eu, com certeza, nunca o ouvi fazendo isso.
Mas não é verdade, definitivamente, que nunca escreveu as palavras.

O não dito
Uma razão pela qual levei anos para criar coragem de ler a correspondência antiga que trocaram é que a primeira carta de meu pai que li, após a morte de minha mãe, começava com uma expressão de carinho ("Irenie") que eu nunca o ouvi pronunciar nos 35 anos durante os quais o conheci e terminava com uma declaração ("eu te amo, Irene") que era mais do que eu pude suportar ver. Não soava nada como ele, e por isso guardei todas as cartas num baú no sótão da casa de meu irmão.
Recentemente, quando as recuperei e consegui lê-las, descobri que meu pai de fato declarou seu amor dúzias de vezes, usando as três palavras grandes, tanto antes quanto depois de casar-se com minha mãe. Mas é possível que, mesmo naquela época, tenha sido incapaz de pronunciar as palavras em voz alta e talvez tenha sido por isso que, na memória de minha mãe, ele nunca as "dissera". Também é possível que suas declarações escritas tenham soado tão estranhas a sua personalidade nos anos 1940 como soam a mim, hoje, e que minha mãe, em suas queixas, se recordasse de uma verdade mais profunda oculta sob as palavras aparentemente afetuosas dele. "Both Sides Now", na versão de Judy Collins, foi a primeira canção pop a ficar gravada em minha cabeça.
Era tocada constantemente no rádio quando eu tinha oito ou nove anos, e sua referência a declarar seu amor "em alto e bom som", somada à paixonite que eu nutria por sua voz, ajudou a fazer com que, para mim, o sentido primeiro de "eu te amo" fosse sexual.
Acabei vivendo os anos 1970 e me tornando capaz de, em raros acessos de emoção, dizer a meus irmãos e melhores amigos homens que os amava. Mas, durante todo o ensino fundamental, essas palavras tiveram um sentido para mim, e um sentido apenas. "Eu te amo" era o que eu queria ver rabiscado num bilhetinho da garota mais bonita da classe ou ouvir sussurrado nos bosques no piquenique da escola. Naqueles anos, aconteceu apenas duas vezes de uma garota de que eu gostasse de fato me dizer ou escrever isso. Mas, quando aconteceu, foi uma injeção de pura adrenalina.
Mesmo depois de ir à faculdade e começar a ler [o poeta] Wallace Stevens, descobrindo-o zombando, em "Le Monocle de Mon Oncle", de pessoas como eu, que procuravam o amor indiscriminadamente -"Se o sexo fosse tudo, então cada mão trêmula/ seria capaz de nos fazer gemer, como bonecos, as palavras tão ansiadas"-, aquelas palavras tão ansiadas continuaram a evocar o abrir de uma boca, a oferta de um corpo, a promessa de intimidade inebriante. Assim, era muito constrangedor pra mim que a pessoa de quem eu ouvia essas palavras constantemente fosse minha própria mãe.
Era a única mulher em uma casa de homens e vivia com um excesso tão grande de sentimentos sem reciprocidade que não podia deixar de buscar expressões românticas.
Eu também As cartas e as palavras de ternura que derramava sobre mim eram idênticas em espírito às que derramara sobre meu pai no passado. Muito tempo antes de eu nascer, meu pai já passara a enxergar suas expressões de sentimento como insuportavelmente infantis. Sobrevivi a muitos períodos de minha infância, as longas semanas durante as quais nós dois estávamos sozinhos em casa, me agarrando a distinções cruciais de intensidade entre as frases "eu te amo", "também te amo" e "amo você".
O crucial era nunca, jamais dizer "eu te amo" ou "eu te amo, mamãe". A alternativa menos difícil era um "te amo" resmungado, quase inaudível. Mas "também te amo", se pronunciado com rapidez suficiente e com ênfase suficiente no "também", que deixava subentendida uma reciprocidade obrigatória, garantiu minha passagem por muitos momentos de constrangimento. Não me recordo se ela me repreendeu especificamente por eu resmungar ou me deu bronca quando (como às vezes acontecia) eu era incapaz de responder com qualquer coisa senão um grunhido evasivo.
Mas tampouco me disse, em momento nenhum, que dizer "eu te amo" era simplesmente algo que gostava de fazer porque seu coração estava cheio de sentimento e que eu não deveria me sentir obrigado a dizer "eu te amo" de volta a cada vez. E assim, até hoje, quando sou agredido por alguém gritando "eu te amo" no celular, ouço como coerção. Meu pai, apesar de escrever cartas repletas de vida e curiosidade, não viu nada de errado em relegar minha mãe a quatro décadas encerrada em casa, cozinhando e fazendo a faxina, enquanto curtia seu trabalho lá fora, no mundo dos homens.
Parece ser a regra, tanto no mundinho pequeno do casamento quanto no grande mundo da vida americana, que aqueles que não têm vida ativa no trabalho têm sentimentalismo -e vice-versa. As várias histerias do pós-11 de Setembro, tanto a praga dos "eu te amos" quanto os amplamente disseminados medo e ódio dos "cabeças de turbante", foram histerias daqueles que não tinham poder, que se sentiam dominados. Se minha mãe tivesse desfrutado de mais possibilidades de auto-realização, talvez tivesse medido seus sentimentos de modo mais realista, adequando-os a seus objetos.

Respeito ao público
Por mais frio, reprimido ou sexista que meu pai possa parecer, pelos padrões contemporâneos, eu me sinto grato pelo fato de nunca ter me declarado abertamente que me amava. Meu pai amava a privacidade -ou seja, respeitava a esfera pública. Acreditava na contenção, no protocolo, na razão, porque, sem eles -acreditava- , seria impossível uma sociedade debater e tomar as decisões que melhor atendessem a seus interesses.
Talvez tivesse sido agradável, especialmente para mim, se ele tivesse aprendido a demonstrar mais seus sentimentos por minha mãe. Mas cada vez que ouço hoje em dia um daqueles "eu te amos" parentais berrados ao celular, me sinto um homem de sorte por ter tido o pai que tive. Ele amava seus filhos mais do que tudo.
E saber que ele sentia isso, mas não sabia declará-lo; saber que ele podia confiar que eu sabia disso e não esperava que ele o declarasse -esse era o próprio núcleo central do amor que eu sentia por ele. Amor esse que eu, por minha vez, tomei o cuidado de nunca declarar em voz alta a ele. Mas essa foi a parte fácil. Entre mim e a situação em que meu pai está agora -ou seja, morto-, nada pode ser transmitido, exceto o silêncio. Ninguém tem mais privacidade que os mortos.
Hoje meu pai e eu não nos dizemos muito menos do que nos dissemos em muitos dos anos em que ele viveu. A pessoa de quem eu me descubro sentindo saudades -discutindo mentalmente com ela, querendo mostrar coisas a ela, querendo que viesse conhecer meu apartamento, zombando dela, sentindo remorsos em relação a ela- é minha mãe. A parte de mim que se irrita com as intromissões dos celulares vem de meu pai. A parte de mim que ama meu BlackBerry e quer ficar mais leve e fazer parte do mundo vem de minha mãe. Era a mais moderna dos dois e, embora ele -e não ela- fosse a pessoa que trabalhava fora, ela acabou do lado vencedor.
Se ainda estivesse viva e vivendo em St. Louis e se você, por acaso, estivesse sentado ao meu lado no aeroporto, aguardando um vôo para Nova York, talvez fosse exposto à provação de me ouvir dizendo a ela que a amava.
Mas eu falaria em voz baixa.

JONATHAN FRANZEN é romancista norte-americano, autor de "As Correções" (Cia. das Letras), entre outros livros. A íntegra deste texto saiu na revista "Technology Review".
Tradução de Clara Allain.

- - - Reproduzido da Folha de S. Paulo de 16/11/2008.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 12:38 PM


Quinta-feira, Julho 03, 2008

 
Álcool é a causa de metade dos acidentes graves

Por Ronaldo Laranjeira e Sergio Duailibi.

Acidentes decorrentes do beber-e-dirigir são um importante problema de saúde pública. O Estado possui medidas de controle, sendo a fiscalização com bafômetros a mais eficaz. A identificação e a retirada das ruas dos motoristas intoxicados são um tipo de prevenção que muda o comportamento populacional, e são muito mais eficazes que campanhas educativas.

Não há limites seguros para o consumo de álcool por motoristas. Mesmo em baixas doses, ocorrem queda na visão periférica e comprometimento das noções de distância e velocidade, da atenção, da coordenação e do tempo de reação. O risco de acidentes aumenta uma vez e meia após consumir uma dose e dobra após duas.

No Brasil, o álcool responde por cerca da metade dos 40 mil acidentes graves de trânsito que ocorrem a cada ano, e os jovens são suas maiores vítimas. Pesquisa da Unifesp com 6.356 motoristas em várias capitais apontou que 31% apresentavam álcool no bafômetro. Quando um país desenvolvido identifica de 2% a 3% de motoristas alcoolizados, isso gera um grande debate nacional para melhorar a lei.

A nova lei não está proibindo as pessoas de beberem e não é rígida demais ao estipular que uma quantidade de álcool equivalente a dois chopes seja suficiente para a prisão do condutor. Basta, na maioria das vezes, mudar alguns hábitos e esperar pelo menos uma ou duas horas antes de dirigir. Não existe a possibilidade de o bafômetro identificar alguém que coma bombom de licor ou use medicamentos com álcool. Isso se deve à contaminação da boca e pode ser evitado bebendo um pouco de água.

A lei seca, com adequada fiscalização, pode modificar a tendência atual no Brasil: o descumprimento da lei por quem deveria observá-la, a omissão do poder público que deveria fiscalizá-la e o silêncio da sociedade que deveria exigi-la.

* Ronaldo Laranjeira e Sergio Duailibi são médicos e coordenadores da Uniad (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)

Reproduzido da Folha de S. Paulo de 03/07/2008.

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O artigo "contra" pode ser conferido em Videodrome.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 12:45 PM


Segunda-feira, Março 12, 2007

 
Quem é famoso de verdade?
por ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR.

CONHECE A música do assobio? Eu não conhecia. Ou melhor, conhecia, mas não sabia quem cantava, por isso consultei duas figuras de ilibada reputação indie. A primeira: "Toca em todas as pistas, e não suporto música com assobio". A segunda: "É hit do verão... [achei que eu tinha mandado bem] ...passado".

A música se chama "Young Folks", de Peter, Bjorn & John. Concluí: Peter, Bjorn & John são famosos. Será?

*


Quando ainda existia o programa de rádio "Garagem", levei para tocar uma canção que achei genial: "The Light 3000", cover dos Smiths, por Schneider TM vs. Kpt.Michi.Gan.

Pensei que era o máximo. Mas não só meus dois parceiros já conheciam como até tinham tocado.

Concluí: Schneider TM e Kpt.Michi.Gan eram famosos. Será?

*


A revista do "New York Times" de 4/3 traz longa reportagem com a banda Arcade Fire. Quando os vi pela primeira vez, em Los Angeles, em dezembro de 2004, o clube Spaceland, para umas 300 pessoas, estava lotado. Imaginei que o Arcade Fire já era famoso. Mas pensei melhor lendo esse texto irretocável. Venderam 750 mil cópias do primeiro CD, "Funeral", pelo pequeno selo Merge, tocaram no Conan O'Brien e no "Saturday Night Live".

Concluí: agora, sim, o Arcade Fire ficou famoso.

*


Nesta página, o baterista do Cansei de Ser Sexy, Adriano Cintra, ataca "Escuta Aqui" da semana passada. Na coluna, eu critiquei a cobertura, que considero excessiva e aduladora, que a banda recebe da imprensa brasileira, Folha à frente. Adriano rejeitou meus pontos de vista e defendeu a atenção -"profissional e íntegra"- que o jornal lhe dá. Deve ser a primeira vez desde Gutenberg que um artista escreve a um jornal não para reclamar da cobertura que recebe, mas para declarar apoio. Obrigado, Adriano: era esse mesmo meu ponto.

Reproduzido da Folha de S. Paulo de 12/03/2007.
posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 1:31 PM

 
[réplica]

"Coluna do Álvaro foi tendenciosa e egocêntrica"

Baterista do Cansei de Ser Sexy responde às críticas

ADRIANO CINTRA
ESPECIAL PARA A FOLHA

O senhor Álvaro Pereira Júnior parece estar muito incomodado de não ser dele a cobertura de nosso sucesso no exterior. Em vez de reclamar sobre a suposta superlativa cobertura de nossos feitos no exterior pela Folha daqui do Brasil, por que ele não pega um avião e vai checar isso de perto? Estaria ele esperando o convite da nossa gravadora, com passagem de primeira classe e hotel cinco estrelas? Seu texto é tendencioso.

Diz que "algumas críticas publicadas, especialmente nos EUA, foram bem negativas...". Sim, algumas foram negativas, mas o triplo foi positivo.

Insinua que ninguém lembra da nossa música, destacando que as tais publicações que ele nem se deu ao trabalho de nomear diziam que nosso som era "derivativo de Le Tigre e Tom Tom Club, para ficar só em dois exemplos". Pelo que eu saiba quem falou que nosso som era cópia de Le Tigre (e Peaches) foi ele mesmo.

Nosso disco figurou em várias listas de melhores do ano de 2006. Ficou entre os 20 primeiros na "Uncut", revista que não costuma levar em conta hypes e outras coisas feias parecidas. Isso, por acaso, foi notícia para ele? Não. É claro que ele prefere omitir esse tipo de informação para convencer os leitores do Folhateen que ninguém liga pra nossa música e fazer pouco caso de nossos shows nos EUA.

Sim, temos mais sucesso na Europa, que engloba 47 países, na maioria dos quais já tocamos e temos muitos fãs, da Finlândia à Grécia. Nos Estados Unidos, é raro estarmos na rua e vir alguém pedir autógrafo. Mas lá, temos muitos fãs, que escrevem alguns dos blogs de música mais importantes do mundo, como o Music for Robots (de Nova York, music.for-robots.com) e o Pitchfork (de Chicago, www.pitchforkmedia.com).

Agora, no segundo semestre, vamos tocar nos mais importantes festivais, como o Coachella e o Lollapallooza, para logo depois fazermos nossa terceira turnê pelo país.

Uma coisa que ele precisa entender é que nós não somos e nem queremos ser o U2. Ou o Coldplay, que nos convidou para abrir o show aqui do Brasil e nós negamos. Acabamos de negar um convite do Muse para abrirmos no Wembley Stadium. Nós só nos envolvemos com coisas que realmente acreditamos.

Temos trabalhado como loucos nos últimos nove meses, fizemos mais shows do que qualquer banda nacional, estamos muito felizes e seguros que estamos fazendo a coisa certa, dando um passo de cada vez, e é muito frustrante uma pessoa tentar nos difamar desse jeito sem estar acompanhando de perto o que está acontecendo.

Quando eu li essa coluna, me senti como no dia em que fui tirar a carteira da Ordem dos Músicos do Brasil e a Dona Eulália (a encarregada de decidir se você era músico ou não, um autêntico bastião dos tempos da ditadura) me humilhou e só acabou me dando a maldita carteirinha de músico depois de um bate-boca infernal de 15 minutos. Nesse dia, achei que ia acabar sendo preso por não saber tocar uma rumba na bateria...

(Essa sensação de déjà vu foi mais forte quando ele sugeriu que, para termos o direito de figurar com dignidade nas páginas da Folha, nós precisaríamos ganhar um Grammy. GRAMMY, TIO? Por favor...).

Outra coisa que mostra o quão distante é o mundo dele do nosso: o tal "mercado que interessa". Se, para ele, nosso sucesso não é legítimo porque não conquistamos o mercado americano, bem, então tá. Depois nos chamam de colonizados por cantarmos em inglês...
Podemos não vender tanto nos EUA quanto na Europa, mas a Sub Pop está muito contente conosco.

Esse tipo de jornalismo egocêntrico e negativo combina muito mais com um blog do que com um jornal. Eu não entendi de onde veio essa bronca toda com a Folha por ela estar cobrindo nosso trabalho de forma tão profissional. São tantas bandas internacionais mencionadas sempre na Folha, algumas delas bem menores que o CSS...

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Adriano Cintra, 32, é produtor, baterista e irmão mais velho do CSS.
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Reproduzido da Folha de S. Paulo de 12/03/2007.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 1:28 PM


Segunda-feira, Março 05, 2007

 
CSS e Coldplay navegam no hype

por ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR.

NA SEMANA PASSADA, o Folhateen deu reportagem de capa para a banda paulistana Cansei de Ser Sexy. Com ajuda do computador quântico inaugurado mês passado no Canadá, calculei que essa foi a 106.575 vez que a Folha publicou um texto festivo e favorável a esse grupo brasileiro que faz muito sucesso no circuito indie europeu.

Ainda na semana passada, duas resenhas sobre os shows do Coldplay em São Paulo chamaram a atenção. Uma de Sylvia Colombo, na Ilustrada, outra de Luís Antônio Giron, no site da revista "Época". Ambas exemplares destoantes do clima de quermesse e oba-oba que reina em nossa imprensa cultural. Eram críticas demolidoras, e muito bem fundamentadas, à banda de Chris Martin. "Sessão arrastada de lamúrias coletivas", disparou a Sylvia. "Estilo semigospel", avaliou Giron.
No início de seu texto, Giron reclamou do entusiasmo com a que imprensa paulistana, especialmente a on-line, embarcou na onda dos fãs e se ajoelhou diante do Coldplay. E alertou: "O entusiasmo da platéia não tem nada a ver com o que se passa de fato no palco".

Essa observação nos leva de volta à cobertura laudatória que cerca cada passo do Cansey de Ser Sexy. A banda é o máximo porque o público vibra loucamente. A banda é o máximo porque a imprensa indie britânica a eleva aos céus. Objeto e meio se dissolvem num plasma indistinguível. A música? Quem se lembra dela?
É delicado, neste momento, falar de CSS. Não quero me juntar à legião de invejosos que não aceitam o sucesso da banda e, mesquinhamente, ficam daqui do Brasil torcendo contra. No ano passado, quando as meninas saíram para a turnê americana, dei meus parabéns e escrevi que só isso -tocar em clubes bacanas dos EUA- já era mais do que qualquer banda independente brasileira tinha conseguido.

Mas a excursão americana era só o início. O CSS aconteceu mesmo na Europa. Com os contatos certos e muita disposição, a banda caiu nas graças da máquina de hype: o semanário "NME", a revista "Les Inrocks" e mesmo a grande imprensa de Londres simpatizaram com o CSS. Os reflexos não demoraram a chegar ao Bananão (obrigado, Ivan Lessa).

Tudo isso, é claro, acompanhado pela Folha da maneira mais superlativa. A turnê americana pelos EUA foi tratada como glória absoluta (escondida lá embaixo num texto, a informação de que um show chegou a ser cancelado por falta de público). A chegada à Europa foi descrita de modo não menos triunfal.
Curiosamente, na reportagem do Folhateen, vemos que a Warner quer relançar o primeiro disco do CSS, agora com um esquema mega. Mas para que isso, se, como nos ensina a imprensa brasileira, o jogo já está ganho, EUA e Europa só falam no CSS, só pensam no CSS?

Vou explicar: porque o sucesso do CSS, embora real, inédito e legítimo, é menor do que pode parecer, visto aqui do Brasil. O CSS, por enquanto, bombou no circuito indie europeu, não muito mais do que isso. Algumas críticas publicadas, especialmente nos EUA, foram bem negativas, destacando a falta de nuances do vocal da Lovefoxxx, a pouca coesão das composições, a produção simplória, as letras infantis e o fato de o som ser bastante derivativo de Tom Tom Club e Le Tigre, para ficar só em dois exemplos (e para usar uma palavra branda, "derivativo").

É claro que tudo isso pode mudar: eles podem arrebentar nos festivais europeus de verão, podem ficar famosos no mercado que interessa (os EUA), tocar no programa do David Letterman, abrir a turnê de um artista grande com simpatias pelo Brasil (Beck, por exemplo), ganhar rios de dinheiro, faturar um Grammy...
Tudo isso, é claro, a Folha vai ter de cobrir. E, aí sim, terá razão.

Reproduzido da Folha de S. Paulo de 05/03/2007.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 6:45 PM


Quarta-feira, Janeiro 17, 2007

 
No 25º ano, CCSP é reestruturado

Um dos espaços culturais mais visitados da cidade, centro inspirado no Pompidou busca diálogo maior entre núcleos

Nova diretoria programa mostra interdisciplinar sobre a mulher e pretende intensificar intercâmbio artístico com franceses



O novo diretor do CCSP, Martin Grossman, que diz ver o local como um "navio encalhado", que quer fazer deslanchar novamente

FABIO CYPRIANO
DA REPORTAGEM LOCAL

O Centro Cultural São Paulo (CCSP) irá completar 25 anos no próximo dia 13 de maio e está sendo reestruturado para cumprir novas funções. "Vejo esse local como um navio encalhado. Estamos agora buscando fazer com que ele deslanche novamente", diz o professor da USP Martin Grossmann, que assumiu a direção do local no fim do ano passado.

Com 50 mil m2, portanto bem maior que o prédio da Bienal de São Paulo, com seus 30 mil m2, o CCSP é dos espaços culturais com maior visitação na cidade: são, em média, 2.000 pessoas por dia, sendo a biblioteca a mais visitada da capital e a única aberta aos domingos, segundo seu diretor.

Inaugurado em 1982, a partir do projeto dos arquitetos Luis Telles e Eurico Prado Lopes, o CCSP foi inspirado no Centro Georges Pompidou, aberto em Paris, em 1977, a partir de uma orientação interdisciplinar que reunia, no mesmo teto, espaços expositivos, de pesquisa, artes cênicas e cinema. A princípio o local seria uma extensão da Biblioteca Mário de Andrade, mas, após o então secretário de Cultura municipal, Mário Chamie, visitar o Pompidou, os planos mudaram.

"Creio que herdamos por demasiado uma visão européia de organizar um centro cultural, e as áreas aqui acabaram se tornando pouco mescladas. Estamos reestruturando esse espaço para que haja maior diálogo entre as disciplinas que estão alocadas aqui, como cinema, dança, artes plásticas e teatro", conta Grossmann.
Um exemplo da nova forma de organização deve ocorrer em março, quando a mulher será o tema principal abordado pelas distintas áreas do CCSP. "Queremos agora valorizar o híbrido, que tem muito mais a ver com a produção contemporânea", afirma o diretor.

Internacionalização

Outro novo eixo de atuação do "navio encalhado" é a internacionalização da programação. "A Prefeitura de São Paulo tem convênio com a cidade de Paris e vamos utilizá-lo bastante aqui, promovendo residências artísticas, não só em artes plásticas", diz Grossmann.

A Pinacoteca do Município, que reúne as obras de artes da prefeitura e está subordinada ao CCSP, deve mudar de nome, passando a se chamar Coleção da Cidade. O piso Flávio de Carvalho, utilizado principalmente para funções burocráticas, deve passar a abrigar parte dessa coleção, com mostras temáticas, quando a reforma do espaço for concluída.

Na próxima semana, contudo, por conta do aniversário da cidade, o CCSP já irá expor as novas aquisições da coleção, recebidas por conta do convênio com a exposição Paralela, organizada por galerias de arte da cidade durante a última Bienal. A exposição ocorrerá na Galeria Olido, no centro, também subordinada ao CCSP. A programação de cinema do local, aliás, já está sendo montada a partir da orientação do responsável pela área no CCSP.

Uma nova modalidade de aquisição foi firmada entre a instituição e o Centro Cultural Banco do Brasil. "Como eles financiam a produção de trabalhos de alguns artistas para as exposições que lá acontecem, firmamos uma parceria para que esses artistas doem uma obra da mostra para o CCSP, o que já ocorreu com Edouard Fraipont e espero que aconteça agora com o Amílcar Packer", explica o diretor.

Na programação dos 25 anos estão previstas também a montagem de uma exposição e a elaboração de um livro sobre a arquitetura do próprio espaço. "Não entendo por que o projeto de Telles e Lopes não é valorizado, já que temos tão poucos prédios públicos tão arrojados", afirma Grossmann, que encomendou ensaios fotográficos a artistas paulistanos.

Reproduzido da Folha de S. Paulo de 17/01/2007.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 2:08 PM


Sábado, Agosto 26, 2006

 
Faça amor, não faça guerra

Autor que revolucionou o universo dos quadrinhos, Alan Moore fala à Folha sobre seu novo trabalho, "Lost Girls", uma "graphic novel" erótica.

EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL

Em "V de Vingança", o quadrinista britânico Alan Moore, 52, numa crítica ao Reino Unido de Margaret Thatcher, retratou o que aconteceria a Londres se um misterioso mascarado usasse técnicas terroristas para combater um regime totalitário. Mais de 20 anos depois, Moore abandona a retórica agressiva, se volta ao quadrinho erótico e propõe: "Faça amor, não faça guerra".

No fim de julho, ele lançou nos EUA "Lost Girls", "graphic novel" em que promove o insólito encontro de três personagens infantis já adultas: Alice, do País das Maravilhas; Dorothy, de Oz; e Wendy, da Terra do Nunca, numa HQ assumidamente pornográfica, ainda sem previsão de chegar ao Brasil.

"Em muitos sentidos "Lost Girls" é mais eloqüente do que os outros livros que fiz. Ele é tanto pró-sexualidade e liberdade de expressão quanto fortemente antiguerra. Fala das maravilhas da imaginação sexual e também retrata a guerra como a ausência absoluta e fracasso da imaginação. A imaginação é algo que cria arte e beleza. A guerra destrói a arte e a beleza", diza Moore em entrevista, por telefone, à Folha.

"As guerras destroem não somente belos edifícios, mas dizimam milhões de jovens e alguns deles poderiam se tornar poetas, escultores, pintores, grandes artistas. "Lost Girls" é pornografia, mas também pode ser um recado importante, especialmente para os EUA."

Mix de moças

Moore levou 16 anos para finalizar "Lost Girls". Há tempos ele acalentava a idéia de dar contornos eróticos a Wendy, pois via uma conotação sexual em "Peter Pan": "Há muitas cenas de vôo no livro, e Freud dizia que sonhos de vôo são sonhos de expressão sexual".

A idéia de reunir Wendy, Dorothy e Alice só surgiu depois que Moore conheceu Melinda Gebbie, artista da cena de quadrinhos underground da Califórnia, apresentada a ele pelo amigo comum Neil Gaiman, autor da série "Sandman". Hoje namorada de Moore, Gebbie ilustrou o livro, que tem cenas de sexo em quase todas as suas 400 páginas.

Juntos, o casal estabeleceu idades imaginárias para as personagens, baseadas nos anos em que foram publicados os livros originais. Com isso, Alice seria a mais velha, Dorothy, a mais jovem, e Wendy, a do meio. Quando procuraram uma época em que nem Alice seria muito velha, nem Dorothy muito nova, acharam um período "bastante explosivo", entre 1913 e 1914.

"Poderíamos ter a Primeira Guerra e a primeira apresentação de "A Sagração da Primavera", de Igor Stravinski, na ópera em Paris, como pano de fundo para nossa história colorida. Percebemos que as personagens seriam perfeitas porque queríamos falar da imaginação especificamente a sexual. E não há personagens melhores, ou mais conhecidas, do que elas. A maioria de nossos leitores já leu quando criança. Eles terão ligação emocional também."

Gebbie conta que evitou retratar o sexo de maneira "clínica". Evitando contornos escuros, deu às personagens um ar onírico. Moore quis fugir, na forma e no conteúdo, do convencional, para criar algo "poderoso e sexy" -com direito a sexo grupal.

"Tentamos uma exploração da imaginação sexual. Mas não queríamos apelar apenas à imaginação dos homens heterossexuais, para os quais a maior parte da pornografia se dirige. Queríamos nos voltar para o material erótico produzido durante os períodos eduardiano e vitoriano, que era mais polimorfo. Assim, decidimos que o livro teria um apelo maior para as mulheres. Nós queríamos uma pornografia que se voltasse para diferentes sexualidades. Não podemos afirmar que somos tão abrangentes, mas tentamos abordar tantos gostos sexuais quanto possível."

Direitos

O empréstimo de personagens de outros autores é comum na bibliografia de Moore, que agora prepara mais um livro da série "A Liga Extraordinária". No entanto, a licença poética com os personagens de Lewis Carrol (Alice), John Barry (Wendy) e Lyman Frank Baum (Dorothy) vai esbarrar na questão dos direitos autorais de "Peter Pan" no Reino Unido. O hospital Grear Ormond Street, que detém os direitos sobre a obra de John Barry lá e na Europa, já divulgou nota em que considera seu uso "inapropriado".

Moore defende-se dizendo que ele e Gebbie tomaram "muito cuidado" para serem fiéis aos personagens. "Nossa Alice ainda tem bastante de sua curiosidade e do surrealismo de Carrol. Wendy é muito como a moça de classe média criada por Barry. E Dorothy tem muito do senso aventureiro e ousado da heroína original. Não sugiro que os autores pretendiam um viés sexual em suas histórias. Mas, como todos autores de fantasias, eles tiraram seu imaginário do inconsciente. Seria estranho se não houvesse símbolos ou imagens que não tivessem interpretação sexual em potencial, não?"

Reproduzido da Folha de S. Paulo de 26/08/2006.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 10:41 AM

 

"Indústria americana rouba criadores"

DA REPORTAGEM LOCAL

A editora Via Lettera acaba de lançar no Brasil o quarto volume da série "Watchmen", HQ que injetou força literária nos quadrinhos. Moore, no entanto, não quer falar sobre a obra: "É propriedade roubada", diz, referindo-se aos detentores dos direitos internacionais. "Desculpe se pareço amargo, mas não tenho nenhuma conexão com ela."

Os atritos de Moore com a indústria da HQ começaram nos anos 80. Com a DC Comics, por problemas no pagamento de direitos autorais e "censura etária" a "V de Vingança"; com a Marvel, pois a gigante forçou a mudança do título da HQ "Marvelman" para "Miracleman", nos EUA. O quadrinista acusa a indústria americana dos quadrinhos de "roubar os criadores". "É como eles faziam negócios desde os anos 30, quando muitas das companhias foram criadas por gângsters", conta Moore. "Quando o álcool era proibido, muitos contrabandistas achavam que seria bom negócio ter editoras no Canadá. Lá não havia lei seca. Assim, os caminhões poderiam trazer para os EUA, além das revistas, bebidas alcoólicas no fundo. Todos os personagens americanos de HQ foram efetivamente roubados dos criadores. Isso aconteceu com "Watchmen" e "V de Vingança'".

A briga de Moore com a indústria do HQ se estendeu a Hollywood. Após a estréia do filme "A Liga Extraordinária", ele decidiu associar mais seu nome ao cinema. "No começo ficava contente de receber o dinheiro e não ter muito a ver com o filme. Queria que saísse algo bom, mas inevitavelmente era uma distorção." (ES)

Reproduzido da Folha de S. Paulo de 26/08/2006.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 10:39 AM


Segunda-feira, Junho 26, 2006

 
ENTREVISTA/TARSO GENRO

"A linha que separa candidato de presidente é imaginária"
Adepto do fim da reeleição e de mandato de 5 anos, ministro diz que reforma política é prioridade em eventual segundo governo

MALU DELGADO
ENVIADA ESPECIAL A BRASÍLIA

A NORMA CONSTITUCIONAL que permite a reeleição deve ser reavaliada no próximo governo, segundo o ministro Tarso Genro (Relações Institucionais). O coordenador político do governo admite ter mudado de idéia e, agora, defende eleições gerais no país de cinco em cinco anos. Para ele, é preciso fazer uma reforma política logo no primeiro semestre do próximo mandato e, em seguida, enfrentar questões ainda mais polêmicas, como as reformas do Estado e da Previdência.

Folha - Houve críticas na construção da maioria congressual no primeiro mandato de Lula. Haverá uma nova realidade com a cláusula de barreira, com menos partidos. Isso ajuda a governabilidade?
Tarso Genro - A cláusula de barreira ajuda a reforma política. Dará nitidez a meia dúzia de partidos e obrigará que tenham uma preocupação especial com seu caráter nacional. O presidente Lula entende que o próximo governo, se ele for eleito, deve ser de coalizão partidária, e não mais de relacionamento fragmentário tradicional.

Folha - Já se fala na estrutura de poder que o PMDB teria num segundo mandato, quantos ministérios, quantos cargos etc. Não começa errada e fisiológica a interlocução?
Tarso Genro - Da nossa parte a discussão é preliminarmente programática. Eu gostaria que me apresentassem um partido que não persegue o poder de Estado. Os partidos são vocacionados e construídos para exercer o poder e para administrar a máquina pública. Um governo de coalizão é aquele que coloca na máquina pública os partidos para governar, com responsabilidade para fora e com responsabilidade para dentro. É um mecanismo que obriga a esses partidos que cobrem da sua base parlamentar um mínimo de disciplina. Senão, não há possibilidade de fazer reforma. O problema vai ter que ser enfrentado, seja pelo Lula, pelo Alckmin, pela Heloísa Helena. Aliás, a Heloísa Helena representa emblematicamente o problema. Perguntada como vai governar, com cinco ou seis deputados, disse que não precisa do Congresso, e que o dever do Congresso é ficar controlando o Executivo, ser oposição. Isso é uma visão completamente equivocada. Levará, inevitavelmente, a uma crise. Quem não governar com uma maioria parlamentar estável, que dê capacidade de operar o programa de governo, não governará o país.

Folha - Se todos os partidos buscam o poder, a participação do PMDB será algo maior que fatias em ministérios?
Tarso Genro - O PMDB vai participar do próximo governo, seja ele qual for, seja quem for o presidente. O PMDB é um partido que tem vocação para ser centrista. Quem não governar com o centro, no Brasil, não governa, porque a sociedade tende para o centro. O presidente Lula já disse que não foi uma tragédia ter perdido em 1989 porque, naquele momento, o PT entendia que podia fazer um governo puro de esquerda, o que era um equívoco total.

Folha - Qual é o programa da coalizão? Haverá reformas?
Tarso Genro - Não se pode confundir programa comum com uma agenda comum. Uma agenda comum identifica pontos que as forças políticas vão debater. Por exemplo: a reforma política. O que nós temos que construir hoje não é um programa que unifique todos os partidos. Isso seria uma posição falsamente democrática, tenderia até a uma postura autoritária. Temos de construir uma agenda que envolva a ampla maioria das forças políticas, para ser a ponte através da qual vamos abordar as reformas. Sem reforma política o Congresso não terá coesão para formar maiorias fortes que encaminharão as reformas e não terá juízo majoritário sobre elas. O programa a ser aplicado será o da coalizão vencedora. Para ser aplicado, tem de cumprir um determinado ritual. O primeiro é a reforma política. Se a reforma política não for feita no primeiro semestre do próximo governo, certamente será adiada por mais quatro anos.

Folha - O sr. já mencionou a necessidade de uma reforma de Estado para se alcançar o crescimento, defendeu corte de privilégios e até a revisão do conceito arcaico de direito adquirido. A declaração gerou desconforto no PT e em vários segmentos sociais. Essa reforma num segundo governo é necessária?
Tarso Genro - É necessária, e não gerou desconforto somente no PT. Gera desconforto em todos os setores corporativos. A luta corporativa é legítima e necessária. Para mim, é o ponto de partida da democracia. O ponto de chegada é a totalidade social, a redução de desigualdades, um Estado público. Não chegamos ainda nesse ponto. Tanto que algumas lutas corporativas são compreendidas, até pela esquerda, como lutas que adquirem legitimidade política por si mesmo. Exemplo concreto: um determinado setor luta por um salário inicial no Estado de R$ 18 mil. É legítimo, mas não pode ser acolhida por uma razão objetiva: significa o Estado como indutor da concentração de renda. Quanto ao direito adquirido, não se trata de revogá-lo, mas de dar eficácia moderna a ele, sob pena de que se transforme não numa instituição que proteja direitos, mas que congele privilégios. Sou da opinião que ninguém deve ganhar mais que o presidente, que governador, que prefeito. Se o salário do presidente, que é de R$ 9.000, tem de ser aumentado, ai é outra coisa. É injustificável que, no Brasil, tenhamos um diferencial de salários no serviço público de 1 para 60. O governo que não encarar isso, seja de centro, direita ou esquerda, não vai encarar questões fundamentais como a reforma do Estado. Fazer reforma congelando salário de servidor e tirando direitos dos de baixo, qualquer um faz com a caneta na mão. Quero ver é atacar privilégios e fazer das despesas públicas instrumento de justiça social.

Folha - A reforma do Estado então está na agenda.
Tarso Genro - É um debate que várias forças políticas estão propondo sobre o futuro, que vai ser ou não contemplado no debate eleitoral. Não há nenhuma proposta do governo do presidente Lula formalizada sobre isso, mas há sim uma preocupação.

Folha - Se há preocupação, o debate será travado.
Tarso Genro - Eu não me arrisco a dizer se será travado, até porque não é um tema atraente para o processo eleitoral. É um tema que vai ser tratado provavelmente depois das eleições.

Folha - O debate inclui reforma da Previdência?
Tarso Genro - É um tema que se impõe. Acho que vai ser discutido no próximo período e qualquer governo vai ter que enfrentar isso. Cada um vai enfrentar com uma visão de mundo.

Folha - E a questão da reeleição?
Tarso Genro - Minha intuição, pelas posições que eu vejo do presidente Lula e dos demais candidatos, é que esse tema será tratado. Provavelmente teremos uma revisão da norma constitucional da reeleição. Confesso que mudei de opinião. O ideal seria aquela posição do Tancredo: cinco anos, sem reeleição. Hoje penso assim. Revisei meu ponto de vista. A reeleição tende a politizar excessivamente e a radicalizar as relações entre governo e oposição. O ideal, na minha opinião, seria eleições gerais de cinco em cinco anos.

Folha - Essa discussão está madura no PT?
Tarso Genro - Acho que não. O PT certamente discutirá essa questão no próximo período, a partir das experiências de governo.

Folha - O sr. vê ameaça à democracia com a reeleição? Questiona-se com frequência o uso da máquina por Lula. A linha é muito tênue, entre ser presidente e candidato?
Tarso Genro - A linha é imaginária, não é tênue. A separação entre a função administrativa presidencial e a sua função política -e a sua função política evidentemente reflete em [período de] eleição - só pode ser traçada por uma norma objetiva que impõe determinada conduta. É a lei que vai dizer o que pode e o que não pode fazer. Só é possível separar isso através de condutas objetivas. Porque na esfera da política isso é inseparável. Foi isso que Lula disse e foi mal compreendido: qualquer governante, em qualquer situação, desde o primeiro ato que realiza, transcende a sua função administrativa e [esse ato] se transforma numa questão política que vai influir ou não na sua aceitação eleitoral. O Judiciário só pode avaliar se o governante realizou ou não aquela conduta. Está escrito na lei que o mandatário que fizer inauguração está sob a pena da lei. As demais condutas não prescritas podem ser feitas. O que tem de ser observado é o texto legal. A influência política e eleitoral que vai ter, ou não, isso está fora do exame do poder Judiciário.

Folha - O sr. sempre foi crítico da política econômica. Haverá a chamada inflexão num eventual segundo mandato?
Tarso Genro - Conquistamos a estabilidade, e não renunciamos a ela. Daí a idéia de metas de inflação combinada com metas de crescimento. Nossa visão é distribuir renda para crescer e manter a estabilidade. As medidas tomadas no período do Palocci viabilizaram a boa situação que temos hoje. Não discuto o talento do Palocci nem da equipe dele. Tem o mérito de ter estabilizado economicamente o país e proporcionado um período de credibilidade internacional. Agora, as questões de tempo e de ritmo evidentemente dividiram o PT e o governo. Acho que um próximo governo, se desencadear a farra fiscal, a visão de crescimento artificial com sacrifício da estabilidade, seja que governo for, vai desestabilizar o país.
Quando o sr. Alckmin propõe uma redução imediata e drástica dos impostos, combinada com um crescimento de 8%, ele estará implodindo a economia do país. Só uma pessoa que não entende nada de economia e que não tem assistência séria nessa área pode dizer um disparate desse tipo. O Brasil tem de crescer permanentemente, distribuindo renda. Para isso, tem de crescer de maneira ponderada, adequada. Acho que crescimento, no ano que vem, de 5%, como ponto de partida para crescimentos superiores depois, é muito bom para o país. Na minha opinião tem de ter transição sem renúncia da estabilidade.

Reproduzido da Folha de S. Paulo de 25/06/2006.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 9:10 AM


Sexta-feira, Abril 28, 2006

 
HIPOCONDRIA DE RESULTADOS
Revista médica acusa indústria farmacêutica de fabricar moléstias para vender remédio

MARCELO LEITE
COLUNISTA DA FOLHA

A predileção incomum do público por soluções simples para problemas complexos, em especial os de saúde, é um segredo de polichinelo explorado há milênios pelos vendedores de ungüentos, garrafadas e emplastros milagrosos. Basta visitar o mercado Ver-o-Peso, em Belém do Pará, ou ouvir programas populares de rádio AM, para verificar que a tradição continua forte. Bem mais lucrativo que inventar remédios, porém, é fabricar doenças novas, com critérios de diagnóstico amplos e algum recém-desenvolvido medicamento de uso contínuo. Dá para ganhar bilhões com pílulas como Prozac ou Viagra, os símbolos de uma época em que estar doente é pop.

A receptividade e o entusiasmo dos consumidores contemporâneos para com as novas moléstias parecem inesgotáveis. A boa e velha impotência masculina foi repaginada como disfunção erétil e até ganhou uma companheira, a disfunção sexual feminina. Todos ficaram momentaneamente convencidos de que seriam felizes para sempre, sob as bênçãos do sildenafil. A única ameaça viria talvez do transtorno disfórico pré-menstrual (a antiga TPM), mas contra ele se ergueu uma barragem de inibidores seletivos de recaptação de serotonina, as drogas da família do Prozac: fluoxetina, sertralina, paroxetina, fluvoxamina... É só escolher.

Outra ameaça para a paz no leito, não só a conjugal, ganhou o nome quase humorístico de SPI (síndrome das pernas inquietas). Milhões de pessoas descobriram que sua insônia vinha dos membros inferiores, e não da cabeça. Melhor ainda, que ela poderia ser tratada com um comprimido de ropinirol. Maravilha.

Nem a escola escapou do marketing que mantém as empresas farmacêuticas como um dos ramos mais rentáveis da indústria, ainda que sua capacidade de inovação -medida pelo número de novos princípios ativos aprovados para comercialização- esteja em queda contínua. Para a epidemia de TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) existe, felizmente, o metilfenidato, que professores, enfermeiros, médicos e até pais se alegram em ministrar a uma geração incontrolável. A nova moda, agora, é diagnosticar guris de até 2 anos de idade com transtorno bipolar (ex-PMD, psicose maníaco-depressiva, antes uma prerrogativa dos adultos) e tratá-los na base dos "estabilizadores de humor".

O dossiê exagera na demoni-zação da indústria farmacêu-tica, que não exerce um papel tão proe-minente assim na exageração de outras panacéias biomédicas

Essa tendência do mercado farmacológico para a massificação de moléstias preocupa um número cada vez maior de médicos e até de jornalistas, em geral coadjuvantes empenhados desse processo. Ele já foi chamado de medicalização da vida, mas hoje é conhecido de maneira mais pejorativa como "disease-mongering" (algo como "apregoar doenças", aqui traduzido por "fabricação de doenças"). Há duas semanas, ganhou mais visibilidade com uma coleção de ensaios publicada no periódico científico de acesso aberto "PloS Medicine" (medicine.plosjournals.org), três dezenas de páginas de ataque frontal às táticas de vendas das empresas farmacêuticas e aos médicos e jornalistas que se prestam a implementá-las.

O termo "disease-monger" foi criado em 1992 por Lynn Payer, relembra Leonore Tiefer, da Universidade de Nova York, em seu artigo para o dossiê da "PloS Medicine".

Payer também listou os dez mandamentos para a fabricação bem-sucedida de uma nova doença:

01. Tomar uma função normal e insinuar que há algo de errado com ela e que precisa ser tratada;
02. Encontrar sofrimento onde ele não necessariamente existe;
03. Definir uma parcela tão grande quanto possível da população afetada pela "doença";
04. Definir a condição como uma moléstia de deficiência ou como um desequilíbrio hormonal;
05. Encontrar os médicos certos;
06. Enquadrar as questões de maneira muito particular;
07. Ser seletivo no uso de estatísticas para exagerar os benefícios do tratamento disponibilizado;
08. Eleger os objetivos errados;
09. Promover a tecnologia como magia sem riscos;
10. Tomar um sintoma comum, que possa significar qualquer coisa, e fazê-lo parecer um sinal de alguma doença séria.

O ponto forte do dossiê da "PloS Medicine", editado pelos australianos Ray Moynihan (jornalista, autor do livro "Selling Sickness", ou "Vendendo Doença") e David Henry (farmacologista clínico, fundador da página de internet Media Doctor, www.mediadoctor.org.au), é não poupar a imprensa como co-autora dessa obra de falsificação em massa. O ponto fraco é algum excesso na demonização da indústria farmacêutica, que não exerce um papel tão proeminente assim na exageração de outras panacéias biomédicas, como a genômica e a pesquisa com células-tronco.

A "big pharma", afinal, só vende o que nos dispomos a comprar, como lembrou Ben Goldacre, médico e autor do popular blog britânico Bad Science (má ciência): "Somos todos participantes desse jogo. Fingir que a medicalização é algo imposto a nós -por malvadas e poderosas influências externas- só enaltece um sentimento perigoso de passividade", ressaltou Goldacre.

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Marketing sarado
As novas criações da indústria da doença e suas curas extraordinárias

Disfunção erétil + Viagra (sildenafil): Inicialmente destinado a tratar impotência proveniente de outros problemas, como diabetes, cirurgias da próstata e traumas da medula espinhal, o Viagra teve sua comercialização progressivamente ampliada para uso por homens normais, para ajudá-los a obter e manter mais e melhores ereções. O site do fabricante, a americana Pfizer, afirma sem citar a fonte que mais da metade dos homens acima de 40 anos podem sofrer da disfunção. Joel Lexchin, da York University (Canadá), diz que possivelmente se trata de um estudo feito perto de Boston em 1987-1989 e informa que o percentual de 52% foi obtido num subgrupo dos homens pesquisados, justamente o daqueles que tinham procurado uma clínica de urologia (e que portanto deve apresentar uma proporção maior de pacientes afetados). Outros estudos chegaram a cifras como 18% de disfunção erétil, em graus variados, entre homens de 50-59 anos, ou apenas 1% de incapacidade total de ter uma ereção na faixa de 50-65 anos.

Transtorno bipolar de humor + estabilizadores de humor Zyprexa (olanzapina), Risperdal (risperidona), Seroquel (quetiapina): Nova e mais popular embalagem da doença psiquiátrica antes conhecida como PMD (psicose maníaco-depressiva, agora transtorno bipolar I). Estimativas de incidência do transtorno bipolar passaram de 0,1%, no tempo da PMD, que implicava pelo menos um episódio de hospitalização, para 5%, agora que foram incluídas na definição também variantes "comunitárias" do transtorno. Com o milagre da multiplicação dos diagnósticos, inclusive com a proliferação de testes para autodiagnóstico, criou-se também a racionalidade para passar a prescrever medicamentos antipsicóticos como preventivos. Surgiram então periódicos, sociedades profissionais e conferências anuais sobre transtorno bipolar, parcialmente financiados por empresas farmacêuticas. Segundo David Healy, da Universidade de Cardiff, não há apoio empírico para justificar esse uso profilático nem para a crença de que ele possa evitar suicídios (antes o contrário). De 2000 para cá, crianças de até 2 anos de idade passaram a ser diagnosticadas como bipolares e tratadas com antipsicóticos, nos EUA.

Transtorno disfórico pré-menstrual + inibidores seletivos de recaptação de serotonina, como Sarafem (fluoxetina), Zoloft (sertralina), Aropax (paroxetina), Luvox (fluvoxamina) e Cipramil (citalopram): Casos mais radicais da já conhecida e até folclórica tensão pré-menstrual (TPM) foram elevados à condição de doença psiquiátrica séria, rebatizada como transtorno disfórico pré-menstrual. Um estudo de 2002 concluiu que 6% das mulheres americanas sofriam com o transtorno e que outros 19% eram casos limítrofes. Em paralelo, a fluoxetina -nada menos que o popular Prozac- foi reformulada para o novo uso como Sarafem pela empresa Eli-Lilly. Segundo Barbara Mintzes, da University of British Columbia (Canadá), a Agência Européia de Avaliação de Medicamentos recusou aprovação para o uso de inibidores seletivos de recaptação de serotonina para tratar o sucessor da TPM, mas eles foram licenciados nos Estados Unidos e na Austrália.

Disfunção sexual feminina + Viagra (sildenafil): Por volta de 1997, a febre do Viagra ameaçou contaminar também a sexualidade das parceiras, e urologistas começaram a falar numa nova doença, a "impotência" (disfunção sexual) feminina, também chamada de transtorno de excitação sexual feminino. Em 2004, segundo Leonore Tiefer, da Universidade de Nova York, fracassou de vez a busca da Pfizer para ver o Viagra aprovado para resolver o novo problema das mulheres, também, porque os testes clínicos com doença e remédio inovadores deram resultados inconsistentes sobre a eficácia do segundo em tratar a primeira. Apesar disso, médicos americanos continuam a prescrever Viagra para mulheres.

Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) + Ritalina (metilfenidato): Depois da epidemia de diagnósticos de dislexia, a moda em matéria de medicalização do desempenho escolar passou a ser a TDAH, contemporânea da ascensão da Ritalina como remédio certo para a doença certa. Somente entre 1990 e 1995, multiplicaram-se por 2,5 nos Estados Unidos as prescrições da droga para crianças e jovens. No Canadá, por 5. Segundo Christine Phillips, da Australian National University, o envolvimento de professores na popularização do diagnóstico foi fundamental para a estratégia de marketing das empresas fabricantes, como a Novartis e a Shire, que patrocinam sites "educacionais" na internet com seções dedicadas a educadores e enfermeiros escolares. A indústria também apóia financeiramente grupos de pressão como o norte-americano Children and Adults with ADHD (www.chadd.org).

Síndrome das pernas inquietas + Requip (ropinirol): Antes de 2003, dificilmente ocorreria a uma pessoa com uma sensação incômoda nas pernas e uma urgência em movimentá-las, em especial durante a noite, que ela poderia estar sofrendo de uma doença, muito menos séria. Naquele ano, porém, a GlaxoSmithKline lançou nos EUA uma campanha de esclarecimento segundo a qual "uma nova pesquisa revela um transtorno comum porém pouco reconhecido -síndrome das pernas inquietas- que está mantendo americanos acordados à noite". Em 2005, a FDA aprovou o uso do medicamento ropinirol para tratar essa condição. Segundo Steven Woloshin e Lisa Schwartz, da Escola Médica Dartmouth (EUA), reportagens sobre a doença costumam citar que ela aflige 12 milhões de americanos, ou algo como 1 em 10 adultos, embora uma cifra inferior a 2,7% seja mais provável. Algumas reportagens mencionam que melhoram os sintomas de 73% dos pacientes que tomam o remédio, mas são raras as que informam que o mesmo acontece com 57% dos que tomam placebos, ou que o ropinirol pode causar náuseas, tonturas e até sonolência e fadiga (sintomas que deveria curar).

Alzheimer + inibidores de colinesterase Aricept (donepezil), Exelon (rivastigmina) e Reminyl (galantamina): O inibidor donepezil foi aprovado em 1996 nos Estados Unidos para tratar manifestações do mal de Alzheimer como demência e problemas cognitivos, antes mesmo que estudos clínicos apropriados tivessem sido publicados nos periódicos médicos. Em 2003, um estudo mais completo de revisão dos testes clínicos realizados revelou que o efeito benéfico era mínimo, com somente 10% dos pacientes tratados obtendo resposta melhor que a de um placebo. Segundo Marina Maggini, Nicola Vanacore e Roberto Raschetti, do Instituto Nacional de Saúde da Itália, todos os testes clínicos têm metodologia questionável, pois acompanham pacientes por apenas alguns meses, quando se trata de uma doença que se desenvolve ao longo de décadas.

Reproduzido da Folha de S. Paulo.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 1:05 PM


Segunda-feira, Abril 24, 2006

 
A Varig é a nossa cara

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Lula tenta tirar a dignidade da Varig. Insiste que se trata de uma empresa privada, mas ela é um símbolo
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GERALD THOMAS

Numa manifestação que a classe teatral fez, no Rio, no dia doze deste mês, em apoio à Varig, a imprensa, mais uma vez, não ajudou. Ao contrário, só serviu para fazer sensacionalismo, descontextualizar ainda mais as coisas e... desinformar o público.

Vamos por partes. Primeiro, o que diz respeito ao que eu falei no pequeno palco do Teatro Leblon. (Aliás, qual não foi a minha decepção ao ver tão pouca gente de teatro reunida; gente essa que "deve" um passado enorme à Varig. Na hora em que a corda aperta, some todo mundo. Típico, não é?)

Subi ao palco, seguindo o lindo manifesto lido por Marco Nanini. E expus o quanto está difícil encontrar palavras que sirvam para nos fazer entender por esses que hoje sentam no poder. No dia da manifestação, as manchetes de todos os periódicos diziam que o PT havia sido acusado de "formação de quadrilha". Então falei: "Já que Lula não nos ouve mesmo, será que uma quadrilha nos ouviria?". Comparei a Varig aos grandes patrimônios nacionais, mencionando a associação de idéias que ela, como representante do Brasil nos ares do mundo inteiro há quase 80 anos, suscita -ao nos remeter à "Garota de Ipanema" e à imagem do Pão de Açúcar ou do Corcovado, à arquitetura de Niemeyer ou ao Jardim Botânico; enfim, um patrimônio.

Fosse qualquer outra coisa sem interesses opostamente ligados a essa "quadrilha", Lula já teria feito o que deveria faz tempo: ou deixar a Varig livre para negociar seu próprio futuro sem interpor o seu focinho (assim como no melhor sentido da "deregulation" reaganiana, americana), ou pagar o que o governo deve à empresa -fazer com a Varig um plano de recuperação, incluindo subsídios de Petrobras e Infraero, como se vê nas melhores famílias.

Foi, em parte, isso que falei. E citei exemplos: depois do 11 de Setembro, a indústria aérea no mundo inteiro pegou a gripe aviária. Até a Swissair acabou. A que voa hoje se chama simplesmente Swiss, e foi comprada por uma Lufthansa pesadamente subsidiada com dinheiro da Bundesrepublik Deutschland. Ah, sim. Disse que sem a ajuda de injeção de libras esterlinas e um enorme subsídio da British Petroleum, a British Airways não estaria hoje voando com a dignidade que está.

Pois Lula está tentando tirar a dignidade da Varig. E isso é muito estranho, já que a Varig é a cara do Brasil, é a nossa cara! Lula insiste em dizer que se trata de uma empresa privada, mas sabe muito bem que é muito mais do que isso: a Varig é um símbolo brasileiro respeitadíssimo no mundo inteiro, que já serviu de embaixada, já resgatou presos políticos (alguns companheiros de Lula). Não é uma questão de símbolos? Então para que gastar US$ 10 milhões para mandar um brasileiro passar uns dias no espaço quando se sabe muito bem que o Brasil não tem uma agência espacial, que isso não terá seqüência ou conseqüência? O que foi aquilo senão um símbolo tolo de machismo? Um factoidezinho? E outras asneiras. Metrô de Caracas, quando nem São Paulo possui um metrô suficiente para seu tamanho ainda? Como assim? Caracas?

Acho que no Planalto já não se diz coisa com coisa, e é por isso que Lula insiste em dizer que não irá ajudar a Varig. Mas será que ele percebe o que está dizendo?

Essa companhia pioneira, com quase 80 anos e que acaba de ganhar o primeiro lugar em segurança no mundo -da Iata, Associação Internacional de Transporte Aéreo-, pode ser extinta assim, por um capricho ou negligência, justamente por aquele que nasceu do Partido dos Trabalhadores e se diz um deles? Fechar a Varig significa demitir mais de 11 mil somente no corpo principal da companhia. Lula, pense bem! Quantos brasileiros cultos, orgulhosos, dignos de medalhas -e não do desemprego- você estaria colocando na rua?

Não faz sentido?

Há quem me escreva reclamando, dizendo que a situação da Varig é o resultado de anos e anos de má administração financeira. Minha resposta é que o Brasil é um lugar onde se pratica a má administração financeira, com mensalão, corrupção institucionalizada, caixa dois ou, até há poucos anos, uma desvalorização da moeda tão brutal que afetou até este jornal e todo o meio empresarial. Ou seja, quem tem história obviamente tem dívidas, tem carga humana, alma humana e, sem dúvida nenhuma, muitas falhas também. Não se iludam com essas novinhas aí, que estão no ar. Lembram-se quando elas caíam feito pato em temporada de caça?

A Varig é um patrimônio cultural precioso e deve ser tratada como tal. Seu pessoal de terra e todos os que nela voam são a cara do Brasil, refletem as nossas ansiedades e não usam aqueles "coquetéis esculturais" na cabeça no lugar dos cabelos, como tantas linhas aéreas ainda o fazem. Eu exijo mais respeito quando algum "foca" reproduzir o que eu digo em discurso, porque, em suma, foi isso.

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Gerald Thomas é autor e diretor de teatro.
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Reproduzido da Folha de S. Paulo.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 8:10 AM


Terça-feira, Abril 11, 2006

 




Afanado do Rapadura Açucarada.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 1:39 PM


Segunda-feira, Outubro 10, 2005

 



Nas colinas, as Cidades.





Foi só ao fim da primeira semana de viagem pela Iugoslávia que Mick descobriu como era a pessoa mais sectária do mundo o seu amante. Na verdade, fora avisado. Uma das bichas nos Banhos Turcos lhe havia dito que Judd estava à direita de Átila, o rei dos Hunos, mas o homem fora um dos casos de Judd, e Mick achou que havia mais despeito do que objetividade nessa restrição de caráter.

Ah, se tivesse dado ouvidos à advertência! Então não estaria dirigindo aquele Volkswagen por uma estrada interminável, sentindo-o com o tamanho de um caixão de defunto e ouvindo a opinião de Judd sobre o expansionismo soviético. Jesus, como ele era chato! Judd não conversava, fazia conferências intermináveis. Na Itália o sermão foi sobre a exploração do voto dos camponeses pelo comunismo. Agora, na Iugoslávia, Judd entrava com entusiasmo no assunto, e Mick tinha vontade de dar com um martelo naquela cabeça intolerante.

Não que discordasse de tudo o que Judd dizia. Alguns argumentos (aqueles que Mick compreendia) pareciam bastante lógicos. Mas, na verdade, o que sabia ele do assunto? Era professor de dança. Judd era jornalista profissional e uma autoridade no ramo. Como a maioria dos jornalistas que Mick conhecia, achava-se na obrigação de ter opinião própria sobre tudo que existisse sob o sol. Especialmente sobre política, o melhor lago para se mergulhar. Era possível enfiar o focinho, os olhos, a cabeça e as patas da frente naquela água escura e se divertir à beça, chapinhando por algum tempo. Era um assunto inesgotável para se devorar, um cocho com um pouco de tudo, porque, de acordo com Judd, tudo se resumia em política. As artes eram política. Sexo era política. Religião, comércio, jardinagem, comer, beber e peidar - tudo era política.

Jesus era uma chatice de estourar os miolos; uma chatice mortal, capaz de assassinar qualquer amor.

E, o que era pior, Judd não parecia se dar conta do quanto Mick estava chateado, ou, se notava, não dava a menor importância. Continuava a falar, os argumentos cada vez mais longos, as frases se esticando a cada milha que venciam.

Judd, Mick concluiu, era um egoísta filho da mãe, e logo que terminasse a lua-de-mel ele o largaria.




Foi somente naquela viagem, naquela infindável caravana errante pelos cemitérios da cultura centro-européia, que Judd descobriu quão pouco Mick sabia sobre política. O cara demonstrava ter interesse mínimo pela economia ou pela política dos países que atravessavam. Notou sua completa indiferença pelos fatos importantes a respeito da situação italiana e viu quando bocejou, sim, bocejou, ao tentar (e falhar) explicar-lhe a ameaça russa à paz do mundo. Tinha de enfrentar a amarga verdade: Mick não passava de uma bicha, não havia outra palavra para ele. Certo, talvez não tivesse os trejeitos, nem usasse jóias em excesso, mas ainda assim era uma bicha, feliz por chafurdar no mundo de sonho dos afrescos do começo da Renascença e nos ícones da Iugoslávia. As complexidades, as contradições, até mesmo as agonias que haviam feito essas culturas florescer e murchar simplesmente o aborreciam. Sua mente era tão profunda quanto seu rosto; ele era um maldito joão-ninguém.

Que bela lua-de-mel!...




A estrada para o sul que ia de Belgrado a Novi Pazar era, pelos padrões iugoslavos, uma boa estrada. Havia menor número de buracos do que nas outras por onde haviam passado, e era relativamente reta. A cidade de Novi Pazar ficava no fale do Rio Raska, ao sul da cidade que tinha seu nome. Não era uma região muito procurada por turistas. Apesar da boa estrada, era inacessível ainda assim e não oferecia as amenidades sofisticadas; mas Mick fazia questão de ver o mosteiro em Sopocani, a oeste da cidade, e, depois de uma amarga discussão, ele venceu.

A viagem foi pouco interessante. Os campos cultivados que ladeavam a estrada pareciam secos e empoeirados. O verão fora extremamente rigoroso, e a seca havia assolado muitas aldeias. As colheitas foram más, e o gado, prematuramente abatido para evitar que morresse de subnutrição. Havia uma expressão de derrota nos poucos rostos que viam na estrada. Até as crianças tinham um ar tristonho; expressões tão pesadas quanto o calor sufocante que pairava sobre o vale.

Agora, com as cartas na mesa depois da briga que tiveram em Belgrado, viajavam em silêncio a maior parte do tempo, mas a estrada reta, como muitas estradas, convidava à discussão. Quando a tarefa de dirigir é fácil, a mente procura alguma coisa com que se ocupar. O que melhor do que uma briga?

- Por que, diabo, você quer ver esse mosteiro? - perguntou Judd.

Um convite inconfundível.

- Viajamos até aqui... - Mick tentou manter o tom de conversa. Não estava disposto a discutir.

- Mais porras de Virgens, é isso?

Procurando manter a voz o mais calma possível, Mick apanhou o guia e leu.
- "... ali, podem ainda ser vistas e apreciadas algumas das maiores obras da arte sérvia, incluindo o que muitos conhecedores consideram a eterna obra-prima da escola Raska: O Sono da Virgem".

Silêncio.

Então Judd disse:
- Estou com o saco cheio de ver tantas igrejas.
- É uma obra-prima.
- Todas são obras-primas, segundo esse maldito livro.

Mick sentiu que começava a perder a calma.

- Duas horas e meia no máximo...
- Eu já disse, não quero ver outra igreja; o cheiro delas me dá náuseas. Incenso velho, suor velho e mentiras...
- É um pequeno desvio. Depois podemos voltar para a estrada, e você pode me dar outra aula sobre os subsídios para a agricultura em Sandzak.
- Estou apenas tentando puxar uma conversa decente em lugar desta besteira infindável de procurar obras-primas sérvias...
- Pare o carro!
- O quê?
- Pare o carro!

Judd parou o Volkswagen no acostamento, e Mick desceu.

A estrada estava quente, mas havia uma leve brisa. Ele respirou fundo e andou para o meio da estrada. Vazia de veículos e de pedestres nas duas direções. Em qualquer direção, vazia. As colinas incandesciam com o calor que subia dos campos. Papoulas silvestres cresciam nas valas laterais. Mick atravessou a estrada, agachou-se e apanhou uma.

Ouviu a porta do Volks bater atrás dele.

- Para que paramos? - disse Judd. Sua voz estava irritada, ainda na esperança de conseguir uma discussão, pedindo uma briga.

Mick ergueu-se, brincando com a flor, que estava para soltar as sementes dado o período da estação. As pétalas soltaram-se do cálice quando ele as tocou, como borrifos vermelhos caindo lentamente no asfalto cinzento.

- Eu fiz uma pergunta. - disse Judd.

Mick olhou em volta. Judd estava de pé, no outro lado do carro, as sombrancelhas franzidas numa linha linha de fúria crescente. Mas bonito; oh, sim, um rosto que fazia as mulheres chorarem de frustração por ele ser gay. Um bigode negro e farto (perfeitamente aparado) e olhos que se podiam olhar para sempre, sem jamais ver repetir-se neles a mesma luz. Por que, em nome de Deus, pensou Mick, um homem assim tem de ser um merdinha tão insensível?

Judd retribuiu o olhar de desprezo e avaliação do garoto amuado no outro lado da estrada. Aquela cena que Mick representava agora para ele era nauseante. Ficaria bem, talvez, numa virgem de dezesseis anos. Num garoto de vince e cinco, faltava-lhe credibilidade.

Mick deixou cair a flor e tirou a aba da camisa de dentro da calça jeans. Uma barriga firme, depois o peito macio apareceram quando ele a tirou completamente. A cabeça reapareceu com o cabelo despenteado e um largo sorriso. Judd olhou para aquele corpo. Perfeito, não musculoso demais. A cicatriz da operação de apêndice espiava sobre a cintura da calça jeans desbotada. Um cordão de ouro, pequeno, mas refletindo a luz do sol, mergulhado na cavidade abaixo do pescoço. Sem perceber, retribuiu o sorriso de Mick, e uma espécie de paz se estabeleceu entre eles.

Mick estava desafivelando o cinto.

- Quer trepar? - disse ele, o sorriso constante.
- Não adianta - veio a resposta, mas não a essa pergunta.
- O que não adianta?
- Não somos compatíveis.
- Que apostar?

Agora o fecho da calça estava aberto e Mick caminhava para o trigal ao lado da estrada.

Judd viu Mick abrir caminho no mar ondulante, suas costas da cor dos grãos de trigo, até ficar quase camuflado. Era um jogo perigoso, trepar ao ar livre - não estavam em São Fransico nem em Hampstead Heath. Nervoso, Judd olhou para a estrada. Ainda vazia nas duas direções. E Mick estava se voltando, no meio do trigal, sorrindo e acenando, como um nadador boiando no mar dourado. Que diabo... ninguém ia ver, ninguém ia saber. Só as colinas, líquidas na névoa formada pela evaporação do calor, as colinas cobertas de florestas atentas às tarefas da terra e um cão perdido, sentado na beira da estrada, esperando por algum dono perdido.

Judd seguiu o caminho aberto por Mick através do trigo, desabotoando a camisa enquanto andava. Ratos do campo corriam, escondendo-se rapidamente, entre as hastes de trigo, do gigante que se aproximava, seus passos soando como trovão. Judd percebeu o pânico deles e sorriu. Não queria fazer mal aos animaizinhos, mas como podiam saber disso? Talvez tivesse destruído centenas de vidas, ratos, insetos, vermes, antes de chegar onde Mick estava deitado, completamente nu, num leito de grãos amassados, ainda sorrindo.

Foi bom o que fizeram, amor bom, forte, com prazer igual para ambos; havia na sua paixão uma precisão, sentindo o momento quando o prazer fácil se tornava urgente, quando o desejo se tornava necessidade. Abraçados, pernas entrelaçadas, língua com língua, numa união que só o orgasmo podia realizar, as costas alternadamente queimadas pelo sol e arranhadas pelos grãos, quando rolavam, trocando golpes e beijos. No ardor o ato, preparando-se para o final, ouviram o puf-puf de um trator. mas não estavam em estado de dar importância a coisa alguma.

Voltaram para o Volkswagen com trigo amassado nos cabelos e nas orelhas, nas meias e entre os dedos dos pés. Os sorrisos forçados eram agora sinceros; a trégua, se não permanente, duraria pelo menos algumas horas.

O carro estava um forno, e tiveram de abrir as janelas e as portas para que a brisa o ventilasse antes de seguir viagem para Novi Pazar. Eram quatro horas, e tinham ainda uma hora de viagem.

Quando entraram no carro, Mick disse:

- Vamos esquecer o mosteiro, certo?

Judd olhou para ele boquiaberto.

- Pensei...
- Eu não aguentaria outra porra de Virgem...

Riram juntos, beijaram-se, saboreando um ao outro e a si mesmos, uma mistura de saliva, e o gosto de sêmen salgado.





O dia seguinte amanheceu claro, mas não muito quente. Sem céu azul, apenas uma camada uniforme de nuvens brancas. O ar da manhã era estimulante, como éter, ou hortelã.

Na praça principal de Popolac, Vaslav Jelovsek olhava os pombos que brincavam com a morte na frente dos veículos que enchiam as ruas. Alguns militares, outros civis. Um ar de sobriedade mal disfarçava a excitação que sentia, uma excitação que era compartilhada por todos os homens, mulheres e crianças de Popolac. Compartilhada pelos pombos também, ao que ele sabia. Talvez por isso brincavam ente as rodas dos veículos com tanta habilidade, sabendo que naquele dia dos dias nada de mal podia acontecer.

Olhou para o céu outra vez, o mesmo céu esbranquiçado que via desde o nascer do dia. A camada de nuvens estava baixa, não o ideal para as comemorações. Uma frase passou por sua mente, uma frase em inglês que ouvira de um amigo, "ter a cabeça nas nuvens". Significava, pelo que havia entendido, estar perdido em devaneio, num sonho branco e invisível. Isso, pensou ele com ironia, era tudo o que o Ocidente sabia sobre nuvens, que eram o símbolo dos sonhos. para transformar a frase em verdade, era necessária uma visão que eles não possuíam. Ali, naquelas colinas secretas, não teriam criado uma espetacular realidade dessas palavras vazias? Um provérbio vivo.

Uma cabeça nas nuvens.

O primeiro contingente já se reunia na praça. Um ou dois estavam ausentes por motivo de doença, mas os substitutos, prontos e preparados para tomar seus lugares. Quanto entusiasmo! Sorrisos tão largos quando um deles ouvia chamar seu nome e seu número e saía da fila para se juntar ao membro que começava a tomar forma. Por toda a parte milagres de organização. Todos com uma tarefa a cumprir, com um lugar para ir. Nada de gritos nem empurrões; na verdade, raramente as vozes passavam de murmúrios excitados. Ele observava com admiração o trabalho de armar, prender, e amarrar.

Ia ser um longo e árduo dia. Vaslav estava na praça desde uma hora antes do nascer do sol, tomando café em xícaras de plástico importadas, discutindo as previsões do tempo, que de meia em meia hora eram transmitidas por Pristina e Mitrovica, e observando o céu sem estrelas quando a luz cinzenta da manhã começou a avançar sobre ele. Agora tomava a sexta xícara de café do dia, e não eram ainda sete horas. No outro lado da praça, Metzinger parecia tão cansado e ansioso quanto Vaslav.

Tinham visto a alvorada chegar lentamente do leste, juntos, Metzinger e ele. Mas agora estavam separados, esquecendo o prévio companheirismo, e não trocariam uma palavra até o fim da competição. Afinal, Metzinger era de Podujevo. Tinha de torcer pela própria cidade, na batalha que se aproximava. No dia seguinte trocariam suas histórias de aventuras, mas hoje deviam agir como se não se conhecessem, não trocar nem um sorriso. Pois hoje tinham de ser extremamente partidários, preocupando-se apenas com a vitória da própria cidade sobre a opositora.

Agora estava pronta a primeira perna de Popolac, para satisfação mútua de Metzinger e Vaslav. Todas as verificações de segurança haviam sido feitas, e a perna deixou a praça, sua sombra imensa cobrindo a fachada da Prefeitura.

Vaslav tomou seu café doce, muito doce, e permitiu-se um resmungo de satisfação. Que dias aqueles, que dias! Repletos de glória, com bandeiras dançando ao vento e cenas de virar o estômago, cenas para durar por toda a vida. Um antegozo dourado do céu.

Que a América ficasse com seus prazers simples, seus ratos de quadrinhos, seus castelos cobertos de açúcar, seus cultos e suas tecnologias, ele não queria nada disso. A maior maravilha do mundo estava ali, escondida nas colinas.

Ah, que dias aqueles!

Na praça principal de Podujevo a cena não era menos animada, e não menos inspiradora. Talvez uma silenciosa sensação de tristeza pairasse sobre as comemorações deste ano, mas isso era compreensível. Nita Obrenovic, a querida e respeitada organizadora de Podujevo, estava morta. O último inverno a havia levado aos noventa e quatro anos de idade, deixando a cidade sem suas opiniões decididas e suas decididas proporções. Durante sessenta anos Nita tinha trabalhado com os cidadãos de Podujevo, sempre planejando a próxima competição e aperfeiçoando os desenhos, suas energias gastas na feitura de novas criações mais ambiciosas e mais parecidas com a vida do que no ano anterior.

Agora estava morta, e sua falta era muito sentida. Não havia desorganização nas ruas sem a sua presença, mas já estavam começando a se atrasar e eram quase sete horas e vinte e cinco. A filha de Nita havia substituído a mãe, mas não tinha sua força para incitar o povo à ação. Na verdade, era delicada demais para aquele trabalho. O líder devia ser um misto de profeta e animador de circo, para persuadir, incitar e inspirar os cidadãos a ocuparem seus lugares. Talvez depois de duas ou três décadas, e com a organização de mais algumas competições, a filha de Nita Obrenovic pudesse substituir a mãe. Mas, por enquanto, Podujevo estava atrasada; omitiam as verificações de segurança, olhares nervosos substituíam a confiança dos outros anos.

Mesmo assim, quando faltavam seis minutos para as oito, o primeiro membro de Podujevo saiu para o ponto de encontro, a fim de esperar seu companheiro.

A essa altura, os flancos já estavam presos um ao outro em Popolac, e contingentes armados esperavam ordens na Praça da Cidade.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 12:57 PM


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